{"id":6120,"date":"2023-02-21T10:17:11","date_gmt":"2023-02-21T13:17:11","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6120"},"modified":"2023-02-21T10:17:11","modified_gmt":"2023-02-21T13:17:11","slug":"rosa-maria-egipciaca-a-escrava-e-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/02\/21\/rosa-maria-egipciaca-a-escrava-e-santa\/","title":{"rendered":"Rosa Maria Egipc\u00edaca: A Escrava e Santa"},"content":{"rendered":"<p>Rosa Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz nasceu em Costa de Mina, regi\u00e3o do golfo da Guin\u00e9, local em que v\u00e1rios negros foram escravizados e trazidos para o continente americano. Ela desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro, em 1725. Nessa \u00e9poca, tinha apenas 6 anos de idade. Logo foi \u201ccomprada\u201d por Jos\u00e9 de Souza Azevedo. Ele ordenou que Rosa fosse batizada na Igreja da Candel\u00e1ria.<\/p>\n<p>Egipc\u00edaca viveu no Rio at\u00e9 os quatorze anos de idade, sofrendo abusos de seu propriet\u00e1rio e outros escravos. Depois foi comprada pela m\u00e3e do escritor Frei Jos\u00e9 de Santa Rita Dur\u00e3o, indo morar na freguesia do Inficcionado, atual distrito de Santa Rita Dur\u00e3o, localizado na cidade de Mariana. Durante duas d\u00e9cadas viveu como meretriz.<\/p>\n<p>Aos 30 anos de idade come\u00e7a a sofrer uma enfermidade. O rosto ficava inchado, sentia tumor no est\u00f4mago e desmaiava.\u00a0A doen\u00e7a levou a Rosa a viver uma vida de religiosidade. No ano de 1748, vende seus bens. N\u00e3o muita coisa. O dinheiro arrecado com as joias e roupas distribuiu aos pobres. Passou a frequentar os of\u00edcios divinos e liturgias, que eram celebrados nas igrejas de Minas Gerias. Em uma delas conheceu o Padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes, vig\u00e1rio da freguesia de S\u00e3o Caetano (atua Monsenhor Horta), conhecido por ser exorcista.\u00a0Era apelidado de Xota-Diabos.<\/p>\n<p>Rosa revelou ao sacerdote que estava possu\u00edda por sete dem\u00f4nios. Chegou a receber exorcismo. Devido a suas vis\u00f5es, escutas de anjos e prega\u00e7\u00f5es consideradas edificantes chamou aten\u00e7\u00e3o do clero.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei, na Igreja do Pilar, um religioso interrompeu o serm\u00e3o de Rosa afirmando que ela era o pr\u00f3prio dem\u00f4nio.\u00a0\u00a0Acabou presa na sede do Bispado de Mariana. No pelourinho sofreu chicotadas que quase a levaram a morte.\u00a0Uma junta de te\u00f3logos investigou as possess\u00f5es e apontaram Rosa como golpista ou feiticeira. Entre os testes, estava a resist\u00eancia \u00e0 chama de uma vela, que por 5 minutos suportou acesa debaixo da l\u00edngua. Em 1751, fugiu para o Rio de Janeiro com medo de persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Impressionada com a cerim\u00f4nia do exorcismo, Rosa revelou ela pr\u00f3pria tamb\u00e9m estar possu\u00edda por sete dem\u00f4nios. Em um exorcismo realizado, em Rosa, nessa mesma freguesia confirma ao sacerdote que de fato a escrava do era uma possessa especial, pois quando possu\u00edda, fazia serm\u00f5es edificantes, sempre preocupada que todos mantivessem perfeita compostura nos templos. Falava grosso, ca\u00eda desacordada e dizia ter vis\u00f5es celestiais, vendo por diversas vezes Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, ouvindo diversos coros de anjos que lhe ensinaram algumas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A fama de vision\u00e1ria de Rosa espalha-se por Mariana, Ouro Preto e regi\u00e3o sempre acompanhada do padre Xota-Diabos e de seus exorcismos. Na Igreja do Pilar, em S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei, Rosa interrompe a prega\u00e7\u00e3o de um mission\u00e1rio capuchinho, gritando que ela era o pr\u00f3prio satan\u00e1s. \u00c9 presa e enviada para a sede do Bispado, Mariana, sendo a\u00e7oitada no pelourinho com tal rigor que por pouco n\u00e3o morreu. O Bispo de Mariana D. Frei Manoel da Cruz encarrega uma junta de te\u00f3logos para investigar se a Rosa era mesmo possessa ou golpista. Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de testes, inclusive um de resist\u00eancia \u00e0 chama de uma vela, que por 5 minutos suportou acesa debaixo da l\u00edngua! \u2013 concluem os te\u00f3logos que tudo n\u00e3o passava de fingimento, passando ent\u00e3o o povo a cham\u00e1-la de feiticeira.<\/p>\n<p>Para evitar novos problemas, Rosa foge para o Rio de Janeiro, sempre auxiliada e protegida pelo seu padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes, agora seu propriet\u00e1rio legal. O retorno \u00e0 cidade do Rio de Janeiro se d\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es bem melhores.<\/p>\n<p>Rosa chegou a cidade do Rio de Janeiro em abril de 1751. A capital da Am\u00e9rica Portuguesa, que na \u00e9poca contava mais de 40 mil habitantes. T\u00e3o logo chega ao Rio, Rosa aprender a ler e escrever, tarefa que cumprir\u00e1 razoavelmente. A vida m\u00edstica de Rosa impressiona vivamente os franciscanos, que a veem cumprir todos os exerc\u00edcios pios muito em voga nos s\u00e9culos passados: jejum prolongado, autoflagela\u00e7\u00e3o, uso de sil\u00edcio, comunh\u00e3o frequente. Por toda esta devo\u00e7\u00e3o Rosa recebe dos religiosos o t\u00edtulo de \u201d Flor do Rio de Janeiro\u201d. Seu nome \u00e9 mudado para Rosa Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz \u2013 a segunda parte do nome \u00e9 em homenagem a Santa Maria Egipc\u00edaca (mulher eg\u00edpcia que retirou para o deserto ap\u00f3s uma vida de prostitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 venerada como patrona das mulheres penitentes, em especial na Igreja Copta) e Vera Cruz ( Assim era chamado o Brasil).<\/p>\n<p>Madre Rosa, como ent\u00e3o era chamada por dezenas de seus devotos, sofistica suas vis\u00f5es, passando a escrev\u00ea-las ou ditando para que suas assessores anotassem tudo o que via e ouvia, seja revelado pelos santos, por Maria Sant\u00edssima ou pela pr\u00f3pria boca de Deus. Sempre aplaudida e venerada pelo Padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes, pelo seu frade confessor e por um capuchinho italiano, a Rosa escreve mais de 250 folhas do livro \u201cSagrada Teologia do Amor de Deus Luz Brilhante das Almas Peregrinas.<\/p>\n<p>Em seu misticismo, como cat\u00f3lica fervorosa assistida por diversos diretores espirituais, Rosa incorporou em sua espiritualidade o que de mais moderno existia em termos de devo\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. Foi gra\u00e7as \u00e0s vis\u00f5es de Rosa, e para represent\u00e1-las visualmente, que os franciscanos constru\u00edram no Convento do Largo da Carioca a maravilhosa Capela dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Idolatria pela Rosa foi t\u00e3o grande, que o Padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes mandou pintar um quadro sobre cobre, onde a negra courana posava como se fosse uma bem-aventurada, vestida de h\u00e1bito franciscano, com as cinco chagas, cord\u00e3o e ros\u00e1rio do lado, pisando alguns diabos. Numa m\u00e3o segurava o Menino Jesus e na outra trazia uma pena, s\u00edmbolo de sua erudi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, posto que o Padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes, agora Capel\u00e3o do Recolhimento, proclamara mais de uma vez que \u201cRosa deixava Santa Teresa D\u00e1vila a l\u00e9guas de dist\u00e2ncia\u201d e que aquela Doutora da Igreja n\u00e3o passava de uma \u201cmenina de recados\u201d da mestra africana. Ao rezarem a Ladainha de Nossa Senhora, na estrofe Mater Misericordiae, suas recolhidas se inclinavam reverentes para a Madre Superiora, que era reverentemente incensada pelo sacerdote, o qual trazia no pesco\u00e7o preciosa rel\u00edquia: um dente de Santa Rosa Egipc\u00edaca!<\/p>\n<p>A decad\u00eancia da Madre Egipc\u00edaca iniciou, quando ela se indispor com o clero carioca por ter repreendido alguns sacerdotes que davam mau exemplo conversando na igreja durante as cerim\u00f4nias sacras, sendo denunciada ao Bispo sobretudo ap\u00f3s ter retirado \u00e0 for\u00e7a da igreja de Santo Ant\u00f4nio uma senhora da sociedade que se comportava com menos compostura. Rosa foi presa e dezenas de testemunhas passam a denunciar suas excentricidades como: como m\u00e3e de Deus, redentora do universo, superior a Santa Teresa, idolatria em seu recolhimento e rituais de magia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase um ano presos no Rio de Janeiro, Rosa e o Padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes s\u00e3o enviados para Lisboa, sendo ouvidos pelo Santo Of\u00edcio, em 1763. O padre em poucas sess\u00f5es do inqu\u00e9rito declara ter sido enganado pela falsidade de Rosa, alegando ser pouco letrado em teologia e ter-se fiado na boa opini\u00e3o que o Provincial dos Franciscanos dela fazia. Pede perd\u00e3o de sua boa-f\u00e9 e excessiva credulidade: tem como pena o degredo de cinco anos para o extremo sul do Algarve, al\u00e9m de perder o direito de confessar e exorcizar.<\/p>\n<p>Rosa, por sua vez, d\u00e1 um her\u00f3ico espet\u00e1culo de autenticidade, insistindo em muitas sess\u00f5es que nunca mentiu nem inventou coisa alguma: confirma que todas suas vis\u00f5es, revela\u00e7\u00f5es e \u00eaxtases foram reais. De fato, ela acreditava ser uma predestinada e que Deus em sua miseric\u00f3rdia a tinha escolhido para revelar ao mundo seus des\u00edgnios. Enquanto os inquisidores insistem para que diga a verdade, revelando tudo n\u00e3o ter passado de fingimento para chamar aten\u00e7\u00e3o sobre sua pobre figura, Rosa diz ao contr\u00e1rio: \u201cTudo vi e ouvi!\u201d<\/p>\n<p>Quatro de junho de 1765 \u00e9 a \u00faltima sess\u00e3o de perguntas \u00e0 vidente afro-brasileira: neste dia ela narra uma de suas vis\u00f5es. A partir da\u00ed, inexplicavelmente, interrompe-se o processo de Rosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*com informa\u00e7\u00f5es:\u00a0mariana.portaldacidade.com \/\/\u00a0Alexandre Aguiar (Resist\u00eancia Preta\/Banzar)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosa Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz nasceu em Costa de Mina, regi\u00e3o do golfo da Guin\u00e9, local em que v\u00e1rios<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6121,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-6120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6120"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6120"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6122,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6120\/revisions\/6122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}