{"id":6309,"date":"2023-04-01T17:34:37","date_gmt":"2023-04-01T20:34:37","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6309"},"modified":"2023-04-02T17:38:32","modified_gmt":"2023-04-02T20:38:32","slug":"direito-da-usp-pode-retirar-homenagem-de-acusado-de-violar-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/04\/01\/direito-da-usp-pode-retirar-homenagem-de-acusado-de-violar-corpo\/","title":{"rendered":"Direito da USP pode retirar homenagem de acusado de violar corpo"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Antigo professor de medicina legal embalsamou corpo de mulher negra. Cad\u00e1ver foi mantido por quase tr\u00eas d\u00e9cadas no Largo de S\u00e3o Francisco<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Faculdade de Direito da USP est\u00e1 definindo se mant\u00e9m homenagem a um professor acusado de violar o corpo de mulher negra.<br \/>\nAm\u00e2ncio de Carvalho era m\u00e9dico catedr\u00e1tico de medicina legal e ligado \u00e0 Sociedade Eug\u00eanica de S\u00e3o Paulo. No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, ele fez um experimento de embalsamento de cad\u00e1ver humano. O corpo usado foi o de Jacinta Maria de Santana, mulher negra que vivia nas ruas de SP.<br \/>\nAp\u00f3s sua morte, o cad\u00e1ver foi entregue ao professor para estudos. O corpo, por sua vez, teria sido usado em experimentos e trotes no Largo S. Francisco.<br \/>\nAm\u00e2ncio de Carvalho tem seu nome estampado em uma sala de aula e em uma rua. Agora, a faculdade decidir\u00e1 se mant\u00e9m as homenagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quem foi Jacinta?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Largo do S\u00e3o Francisco est\u00e1 perto de seu bicenten\u00e1rio. Ao longo dos anos, a institui\u00e7\u00e3o assistiu a mudan\u00e7as culturais e foi obrigada a se modificar junto \u00e0 sociedade. Neste contexto, conhecemos o caso de Jacinta Maria de Santana, revelado pela historiadora Suzane Jardim.<br \/>\nPesquisas revelaram que Jacinta era uma mulher negra que vivia pelas ruas de S\u00e3o Paulo, e que teria falecido ap\u00f3s passar mal, por \u201cles\u00e3o card\u00edaca\u201d. Ela chegou a ser levada ao hospital pela pol\u00edcia, mas n\u00e3o resistiu. E isso \u00e9 tudo o que se sabe sobre ela.<br \/>\nReportagem publicada pelo site Ponte afirma que Jacinta n\u00e3o foi fotografada em vida. N\u00e3o foram identificados parentes ou pessoas que compunham seu c\u00edrculo social, ou descoberto se tinha endere\u00e7o.<br \/>\nNo dia de sua morte, o corpo foi entregue ao m\u00e9dico, que a resumiu como \u201cpreta de cerca de trinta anos, h\u00f3spede habitual da pol\u00edcia por sua desmedida intemperan\u00e7a\u201d.<br \/>\nO cad\u00e1ver foi mantido por quase tr\u00eas d\u00e9cadas na Faculdade de Direito da USP, sendo usado para \u201cilustrar\u201d aulas de medicina legal. Mas, ao que parece, o experimento n\u00e3o teve qualquer relevo ou reconhecimento cient\u00edfico.<br \/>\nMais grave: diz-se que, ao longo dos anos, o corpo de Jacinta foi constantemente desrespeitado por gera\u00e7\u00f5es de alunos, tendo sido utilizado em trotes e \u201cbrincadeiras\u201d.<br \/>\nA historiadora Suzane Jardim contou que o primeiro contato com a hist\u00f3ria de Jacinta ocorreu por meio de um peri\u00f3dico negro, que publicou, em 1929, not\u00edcia do enterro de uma m\u00famia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O m\u00e9dico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Am\u00e2ncio Pereira de Carvalho teria a mais alta estima da elite nacional. Era considerado um dos melhores cirurgi\u00f5es do Brasil, atendendo pacientes com alto poder aquisitivo num consult\u00f3rio pr\u00f3ximo \u00e0 pra\u00e7a da S\u00e9.<br \/>\nSegundo informa\u00e7\u00f5es, Am\u00e2ncio era amigo de Jo\u00e3o Maur\u00edcio Wanderley, o Bar\u00e3o de Cotegipe, \u00fanico senador do imp\u00e9rio a votar contra a lei \u00c1urea, porque causaria crise econ\u00f4mica e desordem.<br \/>\nAm\u00e2ncio teria exercido papel fundamental no desenvolvimento da medicina legal, tendo sido ele o respons\u00e1vel por introduzir o estudo na Faculdade de Direito de SP. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de Robinson Henriques Alves, doutor em Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia pela PUC e professor da Universidade Municipal de S\u00e3o Caetano do Sul.<br \/>\n\u201cEle tamb\u00e9m foi presidente honor\u00e1rio da Sociedade Eug\u00eanica de S\u00e3o Paulo. Noutras palavras, defendia o embranquecimento da na\u00e7\u00e3o brasileira, ideal que legitimava a exposi\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver de uma mo\u00e7a negra em pleno Largo S\u00e3o Francisco.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>P\u00e1ginas tristes<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2021, quando o estudo veio \u00e0 tona, foram iniciadas discuss\u00f5es sobre o caso. A partir de ent\u00e3o, a faculdade passou a discutir se retira ou mant\u00e9m na institui\u00e7\u00e3o a homenagem.<br \/>\n\u201cImporta menos ser um fato ocorrido faz mais de 120 anos\u201d, disse o ent\u00e3o diretor da Faculdade, Floriano de Azevedo Marques Neto, ao destacar a gravidade dos fatos. Para ele, o epis\u00f3dio aponta desrespeito ao corpo de um ser humano e revela o vi\u00e9s racista fort\u00edssimo daquela sociedade (e que perdura ainda).<br \/>\n\u201cVivemos um contexto de diversidade in\u00e9dito e entusiasmante. \u00c9 urgente revisitarmos nossa hist\u00f3ria. Passagens pouco venturosas nos entristecem. Exp\u00f4-las n\u00e3o nos far\u00e1 menores.\u201d<br \/>\nO ex-diretor afirmou que \u201ch\u00e1 p\u00e1ginas tristes que devem ser iluminadas, ainda que nos envergonhem\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/www.migalhas.com.br\/quentes\/383892\/direito-da-usp-pode-retirar-homenagem-de-acusado-de-violar-corpo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antigo professor de medicina legal embalsamou corpo de mulher negra. 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