{"id":6541,"date":"2023-06-11T22:14:40","date_gmt":"2023-06-12T01:14:40","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6541"},"modified":"2023-06-12T09:22:32","modified_gmt":"2023-06-12T12:22:32","slug":"padre-victor-conheca-a-historia-do-primeiro-beato-ex-escravo-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/06\/11\/padre-victor-conheca-a-historia-do-primeiro-beato-ex-escravo-do-brasil\/","title":{"rendered":"Padre Victor: conhe\u00e7a a hist\u00f3ria do primeiro beato ex-escravo do Brasil"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Jovem negro venceu preconceitos e se tornou padre em meados de 1800.\u00a0Ap\u00f3s vida dedicada aos pobres, ele ser\u00e1 beatificado em Tr\u00eas Pontas, MG.<\/strong><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O livro que conta a hist\u00f3ria de Francisco de Paula Victor, escrito pelo te\u00f3logo italiano Gaetano Passarelli, come\u00e7a com um sonho. O jovem negro, escravo, que passava seus dias na Campanha (MG) do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, revela ao seu professor de alfaiataria que queria ser padre. Era um sonho imposs\u00edvel a pessoas como ele \u00e0 \u00e9poca, mas ter f\u00e9 \u00e9 crer no que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E Victor venceu todos os preconceitos e barreiras sociais, se tornando o primeiro padre ex-escravo do Brasil. No dia 14 de novembro de 2015, ele foi beatificado pela Igreja Cat\u00f3lica em\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/sul-de-minas\/cidade\/tres-pontas.html\"><strong>Tr\u00eas Pontas<\/strong><\/a>\u00a0(MG).<\/p>\n<p>O que se sabe de Victor est\u00e1 descrito nos poucos documentos que ele deixou em vida e nas dezenas de depoimentos das pessoas que o conheceram. S\u00e3o hist\u00f3rias passadas de pais para filhos que contam de sua humildade, total dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas, persist\u00eancia ante obst\u00e1culos racistas. O que se pode perceber na vida de Padre Victor \u00e9 que a f\u00e9 realmente &#8220;remove montanhas&#8221;, e um sonho \u00e9 capaz de mudar a realidade de uma \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Vida no interior das Minas de outrora<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Padre Victor come\u00e7a em um casar\u00e3o na Rua Direita da\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/sul-de-minas\/cidade\/campanha.html\"><strong>Campanha<\/strong><\/a>\u00a0(MG) de 1827. Foi ali que ele nasceu no dia 12 de abril. O primeiro documento consta que ele foi batizado oito dias depois pelo padre Ant\u00f4nio Manoel Teixeira. Cidade mais antiga do Sul de Minas, \u00e0quela \u00e9poca a vila de Campanha da Princesa da Beira reunia fazendeiros em busca de ouro e seus escravos.<\/p>\n<p>Casar\u00e3o em Campanha, MG, onde Padre Victor nasceu &#8211; em p\u00e9 at\u00e9 atualmente (Foto: Samantha Silva \/ G1)<\/p>\n<p>Victor nasceu escravo, mas n\u00e3o viveu como um. Veio ao mundo na casa de dona Marianna B\u00e1rbara Ferreira, que de forma contr\u00e1ria \u00e0 \u00e9poca, tratava os escravos da casa com dignidade. Por Victor, o carinho foi maior ainda e ela se tornou sua madrinha. Sob sua tutela, ele aprendeu a ler, escrever, tocar piano, falar em franc\u00eas. Aprendeu at\u00e9 a sonhar.<\/p>\n<p>O casar\u00e3o onde Victor nasceu permanece em p\u00e9 at\u00e9 os dias de hoje. Atualmente a Rua Direita se chama Saturnino de Oliveira e o casar\u00e3o abriga uma loja de artesanato da fam\u00edlia da artista Marisol Garcia da Luz, de 51 anos. Ela e a filha J\u00falia da Luz, de 34 anos, tomaram como miss\u00e3o preservar a hist\u00f3ria de Padre Victor. Formada em turismo, J\u00falia chegou a desenvolver um trabalho acad\u00eamico sobre a casa em que mora h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Segundo ela, o velho casar\u00e3o colonial s\u00f3 foi alterado em alguns detalhes, ap\u00f3s passar por duas reformas. As telhas mudaram para as francesas e foram tiradas as feitas na coxa pelos escravos. As janelas de guilhotina foram substitu\u00eddas pelas de folha e detalhes de vidro foram colocados nos p\u00f3rticos das portas. Banheiros que n\u00e3o existiam na \u00e9poca e uma varanda ao fundo foram constru\u00eddos.<\/p>\n<p>\u201cQuando chegamos, foi uma surpresa. A gente n\u00e3o sabia que ele tinha nascido aqui, o im\u00f3vel j\u00e1 estava fechado h\u00e1 algum tempo. A\u00ed a gente percebeu que tinha muita hist\u00f3ria [para preservar]&#8221;, conta J\u00falia, e continua descrevendo o que sabe. &#8220;Dona Marianna era uma mulher de posses. Eles tinham dinheiro, moravam no centro da [vila]. [A fam\u00edlia dela] tinha eira e beira.\u201d<\/p>\n<p>A express\u00e3o de tempos antigos \u00e9 explicada por J\u00falia: eira \u00e9 o eirado, espa\u00e7o onde as pessoas secavam sementes, criavam pequenos animais. A beira \u00e9 o beiral do telhado, e naquela \u00e9poca, \u2018beiras\u2019 trabalhadas revelavam um refinamento que s\u00f3 fam\u00edlias com dinheiro poderiam ter.<\/p>\n<p>\u201c[Victor] teve muita sorte, foi iluminado, nasceu em uma casa com a dona Marianna, que foi a madrinha dele, pagou tudo o que foi preciso, proporcionou tudo o que ele teve\u201d, completa J\u00falia.<\/p>\n<p>J\u00falia e Marisol aos fundos do casar\u00e3o onde Padre Victor morou, em Campanha (Foto: Samantha Silva \/ G1)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O sonho revelado<\/strong><\/p>\n<p>Na juventude, Victor come\u00e7ou a trabalhar como alfaiate e foi ao seu mestre que revelou primeiramente a vontade que tinha de ser padre. A rea\u00e7\u00e3o, como de qualquer um que ouvisse de um negro escravo que queria uma posi\u00e7\u00e3o de brancos, n\u00e3o foi boa. Conta-se que ap\u00f3s sua revela\u00e7\u00e3o, Victor apanhou em rua p\u00fablica de seu mestre.<\/p>\n<p>Mas rea\u00e7\u00e3o oposta teve sua madrinha. Ao ouvir o sonho do afilhado, foi atr\u00e1s do padre da cidade para saber se isso seria poss\u00edvel. Meio incr\u00e9dulo, por\u00e9m esperan\u00e7oso, padre Ant\u00f4nio Felipe de Ara\u00fajo disse que o bispo de\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/minas-gerais\/cidade\/mariana.html\"><strong>Mariana<\/strong><\/a>\u00a0(MG), Dom Ant\u00f4nio Ferreira Vi\u00e7oso, visitaria a vila em breve e com ele poderiam consultar a possibilidade.<\/p>\n<p>Segundo o livro de Passarelli, um documento de inspe\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio em Campanha, em 1737, registra que a vila era habitada por 3 mil brancos e 7 mil negros. Esse documento passou a ser considerado o registro de in\u00edcio da cidade, a mais antiga da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, jovens negros e escravos n\u00e3o eram aceitos em um semin\u00e1rio cat\u00f3lico. A Lei do Ventre Livre e a Lei \u00c1urea, que aboliram a escravid\u00e3o no Brasil, s\u00f3 se tornaram realidade em 1871 e 1888 respectivamente. Mesmo excluindo suas caracter\u00edsticas de nascen\u00e7a, Victor j\u00e1 n\u00e3o poderia entrar pra vida religiosa simplesmente por ser filho &#8216;s\u00f3 de m\u00e3e&#8217;, de pai desconhecido, como explica o atual bispo de Campanha.<\/p>\n<p>Dom Diamantino Prata de Carvalho acompanha o processo de beatifica\u00e7\u00e3o de Victor desde o in\u00edcio e conta que, admirado com a for\u00e7a de vontade de Victor, o bispo resolveu ajud\u00e1-lo. Para ele, a b\u00ean\u00e7\u00e3o de dom Vi\u00e7oso foi essencial para que o jovem pudesse se encaminhar no sonho.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o gestos prof\u00e9ticos, que a gente diz na igreja. H\u00e1 pessoas que intuem, que preveem certas situa\u00e7\u00f5es e a\u00ed j\u00e1 se movimentam, realizam obras capazes de favorecer aquilo que o movimento quer, [no caso] o movimento da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura\u201d, explica.<\/p>\n<p>Mas se o Brasil caminhava para uma transforma\u00e7\u00e3o, o Sul de Minas do s\u00e9culo XIX n\u00e3o estava preparado para ver a mudan\u00e7a t\u00e3o cedo. Ap\u00f3s ser aceito no semin\u00e1rio, como havia prometido a Deus, Victor fez o caminho at\u00e9 Mariana a p\u00e9. Ao chegar, foi recebido com um convite para os fundos da institui\u00e7\u00e3o, por onde os escravos entravam. Foi dif\u00edcil se fazer acreditar que ia entrar pela porta da frente, que seria aluno e n\u00e3o servi\u00e7al.<\/p>\n<p>Dom Diamantino, bispo de Campanha: &#8216;ele superou tudo com muita dignidade&#8217;. (Foto: Samantha Silva \/ G1)<\/p>\n<p>Uma vez l\u00e1 dentro, o tratamento foi digno de um teste de perseveran\u00e7a. \u201cA repercuss\u00e3o n\u00e3o foi boa. Os pr\u00f3prios colegas de Padre Victor o humilhavam, queriam que ele fizesse trabalhos de escravo, limpar o ch\u00e3o, os sapatos de todos\u201d, continua Dom Diamantino.<\/p>\n<p>Conta-se dessa \u00e9poca que Victor fazia o que pediam, como um escravo, \u201cporque n\u00e3o era trabalho pra ele\u201d. Dom Vi\u00e7oso interferiu na medida do poss\u00edvel para que ele fosse tratado como aluno, e como a \u00e1gua que aos poucos fura a pedra, ao se formar no semin\u00e1rio, o desprezo dos colegas foi transformado em no m\u00ednimo respeito e muita admira\u00e7\u00e3o. \u201cFoi muito dif\u00edcil, mas ele superou com muita dignidade, com muita paci\u00eancia, humildade\u201d, finaliza dom Diamantino. O jovem negro ex-escravo se tornava padre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Miss\u00e3o religiosa<\/strong><\/p>\n<p>A ordena\u00e7\u00e3o de Padre Victor aconteceu no dia 14 de junho de 1851, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de todos os religiosos necess\u00e1rios. Uma vez p\u00e1roco, Victor voltou para Campanha e rezou sua primeira missa na cidade natal. Por l\u00e1 permaneceu por cerca de um ano, at\u00e9 que chegou a not\u00edcia de sua transfer\u00eancia para Tr\u00eas Pontas.<\/p>\n<p>Padre Victor chegou \u00e0 pequena vila em junho de 1852 para substituir o vig\u00e1rio da par\u00f3quia que havia morrido. Ironicamente, segundo consta no livro de Passarelli, a origem de Tr\u00eas Pontas est\u00e1 ligada a duas aldeias de negros fugitivos (quilombos), e para destru\u00ed-las, o governo da Capitania de Minas Gerais encarregou dois capit\u00e3es. Ap\u00f3s a miss\u00e3o conclu\u00edda, eles dividiram o territ\u00f3rio em lotes de que tomaram posse.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca em que o padre negro chegava em Tr\u00eas Pontas, a vila reunia em sua maioria fazendeiros que faziam riqueza com o trabalho dos escravos. E se no semin\u00e1rio, onde Deus \u00e9 chamado todos os dias, a rea\u00e7\u00e3o em aceitar um padre negro foi dif\u00edcil, em Tr\u00eas Pontas ela poderia ter se tornado uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u201dEle tamb\u00e9m n\u00e3o foi bem recebido em Tr\u00eas Pontas\u201d, continua Dom Diamantino. \u201cO povo simples o aceitava bem, mas os gra\u00fados&#8230; Por exemplo, o visconde de Boa Esperan\u00e7a falava: \u2018n\u00f3s pedimos um padre s\u00e1bio, um padre bom e manda aqui um neg\u00e3o\u2019. Mas [Padre Victor] foi para amar o povo e perdoar os inimigos.&#8221;<\/p>\n<p>Padre Victor tamb\u00e9m n\u00e3o foi bem recebido em Tr\u00eas Pontas. Falavam: \u2018n\u00f3s pedimos um padre s\u00e1bio, um padre bom e manda aqui um neg\u00e3o\u2019. Mas ele foi para amar o povo e perdoar os inimigos. Estava acima das humilha\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es. Ele via realmente com o olhar de Cristo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Dom Diamantino Prata de Carvalho, bispo de Campanha<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E foi preciso muita sabedoria e persist\u00eancia para derrubar o grande preconceito que havia na \u00e9poca. Ele passou por agress\u00f5es, missas rezadas para uma igreja praticamente vazia, piadas ofensivas. Mas a bondade e a caridade que o religioso continuou a dedicar aos moradores da vila, apesar de todas as humilha\u00e7\u00f5es, pouco a pouco conquistou at\u00e9 os fazendeiros mais ricos da regi\u00e3o e ele passou a ser conhecido como o lend\u00e1rio padre negro de Tr\u00eas Pontas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Vida ao outro<\/strong><\/p>\n<p>Desse per\u00edodo, tudo que se conta foi passado de fam\u00edlia a fam\u00edlia e todos os depoimentos foram reunidos na pesquisa hist\u00f3rica para o processo de beatifica\u00e7\u00e3o. Muitos se lembram de sua voz grave e de sua personalidade r\u00edgida, justa, por\u00e9m bondosa. Padre Victor morava em um casar\u00e3o simples e vivia praticamente de doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a estima por ele aumentava, tamb\u00e9m aumentava o que lhe era doado. Mas nada a ele pertencia. Conta-se que um homem pobre foi a Padre Victor com o est\u00f4mago vazio pedir o que comer. Victor havia acabado de se encontrar com um dos muitos fazendeiros que passaram a frequentar a igreja ap\u00f3s se admirar com o padre negro, e dele ganhou uma quantia de r\u00e9is para ajudar na par\u00f3quia.<\/p>\n<p>O envelope com o dinheiro estava no bolso do religioso, e sem pensar, ao ouvir o pedido do homem, o entregou tudo. Quando o pedinte viu a grande quantia que estava no envelope, voltou correndo para devolver a maior parte e s\u00f3 ficar com o suficiente para comer. Em sua cabe\u00e7a, o padre se enganou ao lhe dar tanto dinheiro. Mas Victor disse: \u201ceu j\u00e1 lhe dei o que tinha e n\u00e3o quero de volta. Fique com tudo\u201d.<\/p>\n<p>Atitudes como essa foram repetidas por muitos moradores da \u00e9poca. O que tinha na casa do padre era de todos, e todos entravam livremente para pegar comida, dinheiro, objetos. Conta-se que Padre Victor somente repetia que esperava em Deus e por isso nunca iria faltar.<\/p>\n<p>Nos fundos de sua casa, o padre ainda cuidava de um leproso \u2013 doente rejeitado pela sociedade da \u00e9poca pela falta de cura para a doen\u00e7a. O homem apareceu na igreja um dia e Padre Victor ofereceu ajuda. No c\u00f4modo onde ele passou a viver, s\u00f3 Padre Victor entrava e passou a cuidar do doente por quanto houve necessidade.<\/p>\n<p>Conta-se tamb\u00e9m que enfrentar o dem\u00f4nio n\u00e3o era coisa dif\u00edcil para o padre. Victor foi um padre exorcista e foram muitos que procuraram sua ajuda para tirar o dem\u00f4nio de entes queridos e resid\u00eancias familiares. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias de que alguma vez o padre negro n\u00e3o tenha conseguido expulsar o \u201cser maligno\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Educando uma \u00e9poca<\/strong><\/p>\n<p>Mas al\u00e9m da infinita bondade para com a popula\u00e7\u00e3o, Padre Victor quis doar algo mais para os moradores daquela pequena vila: educa\u00e7\u00e3o. Conta-se que desde que chegou a Tr\u00eas Pontas, o religioso reunia as crian\u00e7as e ensinava o que sabia a cada uma delas. Ensinou-lhes m\u00fasica (e se n\u00e3o tinha instrumentos musicais, peda\u00e7os de madeira, ferro e restos de casas se transformavam neles), franc\u00eas, sobre o mundo de Deus.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as o adoravam. Mas em determinado momento, Padre Victor resolveu profissionalizar a educa\u00e7\u00e3o e fundou uma escola, a primeira de Tr\u00eas Pontas. Ali reuniu filhos de gente simples e gente rica para aprender de professores que trouxe de fora e dele mesmo. Deu aulas no Col\u00e9gio Sacra Fam\u00edlia at\u00e9 quando a sa\u00fade dele permitiu. Logo depois, iniciou a reforma da capela para se tornar a Igreja Matriz de Nossa Senhora D\u2019ajuda, at\u00e9 hoje em p\u00e9 em Tr\u00eas Pontas.<\/p>\n<p>Padre Victor fundou um col\u00e9gio com grande n\u00ba de alunos. Esse educand\u00e1rio, com organiza\u00e7\u00e3o perfeita, adquiriu conceito igual ao do Col\u00e9gio do Cara\u00e7a [antiga institui\u00e7\u00e3o de MG]. Fez de muitos filhos de fam\u00edlias humildes, homens de cultura, que passaram a viver da intelig\u00eancia. Podemos afirmar que a cultura da cidade \u00e9 ainda fruto da atividade educativa que legou aos p\u00f3steros, o amor \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e ao aprimoramento do gosto art\u00edstico.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Transcrito do Livro: \u201cA Hist\u00f3ria de Tr\u00eas Pontas\u201d, de Am\u00e9lio Garcia de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas para tornar esses planos realidade, foi preciso muito dinheiro. Mesmo precisando investir nas duas obras, Padre Victor n\u00e3o diminuiu seu lado caridoso e continuou dando tudo o que tinha para todos. De repente, o dinheiro come\u00e7ou a faltar e as d\u00edvidas se acumularam.<\/p>\n<p>Uma den\u00fancia foi feita ao Semin\u00e1rio de Mariana sobre os t\u00edtulos n\u00e3o pagos (ainda) pelo padre de Tr\u00eas Pontas e Victor foi chamado a prestar contas ao bispo. Conta-se que ao chegar na sala de Dom Vi\u00e7oso, seu velho padrinho, Victor colocou seu chap\u00e9u na parede e ele permaneceu dependurado, mas no lugar n\u00e3o havia gancho para segurar o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Apesar do espanto, dom Vi\u00e7oso manteve as palavras duras e quis entender o que estava acontecendo. Padre Victor explicou tudo o que estava fazendo, reconheceu seu erro administrativo e prometeu resolver a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Triste com sua desorganiza\u00e7\u00e3o financeira, Padre Victor voltou para Tr\u00eas Pontas com uma decis\u00e3o dr\u00e1stica: iria pedir demiss\u00e3o da par\u00f3quia j\u00e1 que um grande mal havia feito (sem querer) para aquela comunidade. Os moradores se espantaram com a possibilidade de perder o p\u00e1roco querido e resolveram fazer algo.<\/p>\n<p>Conta-se que em uma noite se reuniram todos na porta da casa do padre e lhe entregaram um envelope com todas as suas d\u00edvidas quitadas. O povo mesmo reuniu dinheiro pra isso e o fizeram prometer que n\u00e3o deixaria Tr\u00eas Pontas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Acima de tudo, um grande homem<\/strong><\/p>\n<p>E ali Padre Victor permaneceu por 53 anos at\u00e9 deixar este mundo. Morreu no dia 23 de setembro de 1905 ap\u00f3s ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Sua escola formou pessoas importantes para a regi\u00e3o como o primeiro bispo de Campanha, dom Jo\u00e3o de Almeida Ferr\u00e3o, e o m\u00e9dico Samuel Lib\u00e2nio (que hoje d\u00e1 nome ao hospital de Pouso Alegre &#8211; MG).<\/p>\n<p>Mas sua bondade foi al\u00e9m e formou uma gera\u00e7\u00e3o que p\u00f4de enxergar uma alma semelhante apesar de todas as cores que pudessem nos separar como humanos. &#8220;Ele estava acima das humilha\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es. Ele via realmente com o olhar de Cristo\u201d, afirma dom Diamantino.<\/p>\n<p>&#8220;Ele foi um grande ser humano, uma pessoa que tinha muita f\u00e9. Acredito que ele foi um homem muito autoconfiante, tinha muita for\u00e7a, muita vontade e fez exatamente o que ele quis. Tudo o que ele podia dar, ele deu. Morreu com a roupa do corpo. Ele realmente foi um homem de Deus&#8221;, finaliza J\u00falia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisa feita por: Jos\u00e9 Lucas S. Pedroso (Folha do Piraju\u00e7ara)<\/p>\n<p>Fonte: G1 globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovem negro venceu preconceitos e se tornou padre em meados de 1800.\u00a0Ap\u00f3s vida dedicada aos pobres, ele ser\u00e1 beatificado em<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6542,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-6541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6541"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6541"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6541\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6543,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6541\/revisions\/6543"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}