{"id":6601,"date":"2023-06-19T00:01:08","date_gmt":"2023-06-19T03:01:08","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6601"},"modified":"2023-06-18T21:22:37","modified_gmt":"2023-06-19T00:22:37","slug":"a-danca-da-zebra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/06\/19\/a-danca-da-zebra\/","title":{"rendered":"A dan\u00e7a da zebra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>As semelhan\u00e7as s\u00e3o impressionantes. Ser\u00e1 que foi do\u00a0 \u201cn\u2019golo\u201d jogo de combate angolano, que nasceu a nossa capoeira?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A origem da capoeira sempre foi controvertida. Mestre Pastinha (1889-1981), um dos mais famosos capoeiristas da Bahia, durante muito tempo pensou que a ginga que aprendera desde crian\u00e7a provinha de uma mistura do batuque angolano e do candombl\u00e9 dos jejes, africanos da Costa da Mina, com a dan\u00e7a dos caboclos da Bahia. Mas, por falta de mais conhecimentos, n\u00e3o podia ir muito al\u00e9m dessa afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960. Foi quando uma revela\u00e7\u00e3o mudou completamente suas id\u00e9ias sobre as origens da capoeira. \u00c0 frente de sua academia, situada no Pelourinho, em Salvador, Pastinha recebeu a visita de um pintor vindo de Angola. Chamava-se Albano Neves e Sousa e afirmava que tinha visto na \u00c1frica uma dan\u00e7a semelhante ao tipo de capoeira que o mestre baiano ensinava. S\u00f3 que l\u00e1 chamava-se n\u2019golo.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, ningu\u00e9m por aqui tinha ouvido falar de nada semelhante. A mem\u00f3ria oral n\u00e3o registrava nenhuma pr\u00e1tica ancestral espec\u00edfica. Muitos afirmavam, e continuam afirmando, que a capoeira teria sido inventada pelos escravos nas senzalas. Outros, que teria sido criada pelos quilombolas em sert\u00f5es distantes. Estudiosos t\u00eam ressaltado o car\u00e1ter urbano da capoeira, pois as fontes do s\u00e9culo XIX s\u00f3\u00a0 documentam sua pr\u00e1tica por escravos africanos e crioulos (negros nascidos no Brasil) em cidades portu\u00e1rias, como Rio de Janeiro e Salvador. Naquela \u00e9poca, era uma \u201cbrincadeira\u201d proibida, e a grande maioria dos africanos presos por \u201cjogar\u201d capoeira no Rio de Janeiro era origin\u00e1ria da \u00c1frica centro-ocidental, das \u201cna\u00e7\u00f5es\u201d Congo, Angola e Benguela. Em Salvador, a capoeira tamb\u00e9m era identificada como uma \u201cbrincadeira dos negros angola\u201d. Por essa raz\u00e3o, faz realmente sentido buscar as ra\u00edzes da capoeira na regi\u00e3o dos atuais Congo e Angola.<\/p>\n<p>O n\u2019golo, explicou Neves e Sousa ao velho capoeirista, \u00e9 dan\u00e7ado por rapazes nos territ\u00f3rios do sul de Angola, durante o ritual da puberdade das meninas. Chamado de mufico, efico ou efundula, esse ritual marca a passagem da mo\u00e7a para a condi\u00e7\u00e3o de mulher, apta a namorar, casar e ter filhos. \u00c9 uma grande festa em que se consome muito macau, bebida feita de um cereal chamado massambala. O objetivo do n\u2019golo \u00e9 vencer o advers\u00e1rio atingindo seu rosto com o p\u00e9. A dan\u00e7a \u00e9 marcada pelas palmas, e, como na roda de capoeira, n\u00e3o se pode pisar fora de uma \u00e1rea demarcada. N\u2019golo significa \u201czebra\u201d e, de fato, alguns movimentos, em particular o golpe dado pelo p\u00e9, de costas e com as duas m\u00e3os no ch\u00e3o, parecem mesmo com o coice de uma zebra.<\/p>\n<p>Os registros e a argumenta\u00e7\u00e3o de Albano eram bastante convincentes. Se os africanos escravizados nas Am\u00e9ricas lograram, apesar de condi\u00e7\u00f5es terrivelmente adversas, adaptar suas religi\u00f5es e seus rituais, assim como suas festas e dan\u00e7as de umbigadas, n\u00e3o seria l\u00f3gico que tamb\u00e9m trouxessem para c\u00e1 seus jogos de combate e suas artes marciais? Sabe-se que os ex\u00e9rcitos congol\u00eas e angolano eram formados por guerreiros ex\u00edmios na luta corporal. V\u00e1rios cronistas destacaram a habilidade com que eles evitavam golpes, jogando o corpo para o lado de maneira imprevis\u00edvel e confundindo o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ainda que muitos dos africanos escravizados conhecessem as artes da guerra, a maioria se dedicava \u00e0 agricultura ou \u00e0 pecu\u00e1ria antes de ser aprisionada e embarcada \u00e0 for\u00e7a para as Am\u00e9ricas. Os povos pastores de Angola, em particular, por causa da necessidade de proteger o gado que tangiam contra eventuais gatunos,\u00a0 desenvolveram t\u00e9cnicas de combate individuais, sabendo manejar paus e outras armas contundentes contra os inimigos.<\/p>\n<p>Os cronistas coloniais n\u00e3o forneceram descri\u00e7\u00f5es pormenorizadas das t\u00e9cnicas nem dos rituais desses antigos jogos de combate, o que torna imposs\u00edvel qualquer tentativa de aproxim\u00e1-los da capoeira como hoje a conhecemos. Os significados culturais desses rituais tamb\u00e9m mudaram ao longo dos s\u00e9culos, acompanhando a intensa transforma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica\u00a0 e cultural por que passou a \u00c1frica a partir do s\u00e9culo XVII. At\u00e9 as fronteiras \u00e9tnicas foram redesenhadas antes que se chegasse \u00e0 configura\u00e7\u00e3o atual. Assim, todas as manifesta\u00e7\u00f5es que porventura existem hoje em Angola s\u00e3o express\u00f5es contempor\u00e2neas, e s\u00f3\u00a0 t\u00eam rela\u00e7\u00f5es t\u00eanues com os jogos de combate do tempo do tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<p>Infelizmente, Mestre Pastinha, por ocasi\u00e3o da visita de Albano Neves e Sousa, j\u00e1 estava com a vista comprometida por uma catarata \u2013 ali\u00e1s, nunca operada por falta de recursos. Isso limitava muito qualquer plano seu de divulgar a recente descoberta. Chegou a contar a hist\u00f3ria que ouviu para seus alunos mais pr\u00f3ximos, mas n\u00e3o deixou nenhum registro escrito sobre o n\u2019golo. Nem seu livro Capoeira Angola, publicado pela primeira vez em 1964, nem seus diversos manuscritos, por serem anteriores ao encontro com o pintor luso-angolano, mencionam a \u201cdan\u00e7a da zebra\u201d. Mas Albano Neves e Sousa conseguiu convencer outros brasileiros de sua teoria, entre eles o ent\u00e3o presidente da Sociedade Brasileira de Folclore, Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo (1898-1986).<\/p>\n<p>De volta a Angola, Neve e Souza organizou, em 1966, a exposi\u00e7\u00e3o \u201c\u2026Da minha \u00c1frica e do Brasil que eu vi\u2026\u201d, com o material de suas viagens aos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa dos dois lados do Atl\u00e2ntico, apontando semelhan\u00e7as entre express\u00f5es culturais africanas e dos negros brasileiros. No pref\u00e1cio do cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o, C\u00e2mara Cascudo mencionava que o pintor \u201cviu a gin\u00e1stica do n\u2019golo, batizada em \u2018capoeira\u2019\u201d. O renomado folclorista seria o primeiro a divulgar no Brasil a teoria do n\u2019golo como luta ancestral da capoeira. Ele conhecera Albano Neves e Sousa durante uma viagem a Angola em 1963, e da\u00ed nasceu uma amizade cultivada por correspond\u00eancia durante muitos anos.<\/p>\n<p>Depois de sua viagem ao Brasil e de seu encontro com a capoeira, o pintor explicou a Cascudo, numa longa carta, suas id\u00e9ias sobre as origens dessa arte. O folclorista potiguar encampou a teoria, tanto que citou longos trechos da carta do pintor no seu livro Folclore do Brasil (1967) e incorporou a explica\u00e7\u00e3o no seu Dicion\u00e1rio de Folclore (1972, 3\u00aa ed.). Baseado nas informa\u00e7\u00f5es fornecidas pelo amigo, Cascudo deu mais detalhes sobre a dan\u00e7a da zebra e sua trajet\u00f3ria at\u00e9 se transformar em capoeira. Explicou que o n\u2019golo seria t\u00edpico entre os povos pastores do sul de Angola. O ritual era precedido por uma luta de m\u00e3os abertas, a liveta. O jovem que ganhasse no n\u2019golo teria o direito de escolher sua noiva entre as meninas rec\u00e9m-iniciadas, sem ter de pagar dote. Cascudo sugeriu que o n\u2019golo teria chegado ao Brasil atrav\u00e9s do porto de Benguela.<\/p>\n<p>Aqui, essa tradi\u00e7\u00e3o tribal se transformara em instrumento de defesa e ataque de bandidos. Na edi\u00e7\u00e3o, ele incluiu tr\u00eas desenhos do n\u2019golo, feitos por um artista de Natal com base na obra de Neves e Sousa. Os esfor\u00e7os conjuntos do pintor, do folclorista e do velho capoeirista para resgatar o v\u00ednculo ancestral ligando a capoeira a Angola acabaram dando resultado.<\/p>\n<p>Os desenhos originais de Neves e Sousa s\u00f3 foram publicados em 1972, num livro com o mesmo t\u00edtulo da exposi\u00e7\u00e3o de 1966. A ep\u00edgrafe \u00e9 significativa: \u201cDigam o que disserem\u2026 Se Portugal foi o Pai do Brasil, Angola foi a M\u00e3e Preta que o trouxe ao colo!\u201d Re\u00fane elaborados a partir dos esbo\u00e7os e aquarelas feitos no campo durante vinte anos, acompanhados de pequenos textos explicativos.<\/p>\n<p>Algumas imagens evidenciam semelhan\u00e7as surpreendentes entre a capoeira e o n\u2019golo, como o uso de golpes com os p\u00e9s enquanto as m\u00e3os se ap\u00f3iam no ch\u00e3o (chamado na capoeira de \u201cmeia lua de compasso\u201d ou \u201cde rabo-de-arraia\u201d), muito raro em outras artes marciais. Recentemente, surgiram mais evid\u00eancias desse parentesco. A vi\u00fava de Albano revelou esbo\u00e7os e aquarelas in\u00e9ditos, que ilustram estas p\u00e1ginas. Eles mostram detalhes adicionais do n\u2019golo: o apoio nos bra\u00e7os com uma perna dobrada e a outra esticada para dar um golpe, por exemplo, \u00e9 id\u00eantico \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o na capoeira. E a postura de defesa, com um joelho dobrado e outro esticado, \u00e9 muito parecida com a \u201cnegativa\u201d dos nossos capoeiristas. Como esses movimentos parecem existir somente em jogos de combate da di\u00e1spora dos povos bantos, permanece relevante o v\u00ednculo ancestral entre o n\u2019golo e a capoeira brasileira.<\/p>\n<p>O livro de 1972 foi publicado numa pequena edi\u00e7\u00e3o caseira e circulou pouco na \u00e9poca. Mas as imagens do n\u2019golo \u2013 muitas vezes circulando via fotoc\u00f3pia de fotoc\u00f3pia \u2013 ficaram famosas entre os capoeiristas. O estilo de capoeira angola, que chegou a ser considerado em extin\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1970, experimentou um extraordin\u00e1rio crescimento depois da morte de Mestre Pastinha. Uma nova gera\u00e7\u00e3o de capoeiristas \u201cangoleiros\u201d, liderados por Mestre Moraes e o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho \u2013 GCAP, revigorou o estilo a partir de 1982. Alunos mais antigos de Pastinha, como os mestres Jo\u00e3o Pequeno e Jo\u00e3o Grande, lembravam ocasionalmente a hist\u00f3ria do n\u2019golo, mas n\u00e3o de maneira categ\u00f3rica, como seria feito por Moraes e seu grupo. O GCAP escolheu a dan\u00e7a da zebra como s\u00edmbolo do estilo, porque representava bem a ancestralidade angolana da sua arte e tamb\u00e9m ia ao encontro das afirma\u00e7\u00f5es do movimento negro sobre a import\u00e2ncia da cultura africana na forma\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1990, o n\u2019golo e as listras da zebra t\u00eam figurado nos logotipos e nos websites de muitos grupos de capoeiristas, assim como nas camisas e nos brindes distribu\u00eddos em seus eventos. Os detalhes fornecidos por Cascudo e os desenhos de Neves e Sousa, repetidos e reproduzidos in\u00fameras vezes,viraram refer\u00eancia obrigat\u00f3ria no meio. O n\u2019golo acabou por transformar-se num mito de origem, numa \u201ctradi\u00e7\u00e3o ancestral\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, trata-se de um mito no m\u00ednimo question\u00e1vel. Para come\u00e7ar, n\u00e3o foi transmitido pelos mestres africanos aos seus alunos brasileiros via tradi\u00e7\u00e3o oral. Aceitar literalmente o mito implica, al\u00e9m disso, um tremendo anacronismo, ou seja: como pode uma manifesta\u00e7\u00e3o documentada apenas no s\u00e9culo XX ser \u201ca origem\u201d de uma capoeira que existe pelo menos desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX? Pensar que o n\u2019golo teria sobrevivido inalterado\u00a0 desde a \u00e9poca do tr\u00e1fico negreiro \u00e9 ignorar as profundas mudan\u00e7as pelas quais passaram as sociedades do territ\u00f3rio angolano nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Surpreende que hoje, em Angola, o n\u2019golo seja completamente desconhecido, assim como seu papel como mito fundador da capoeira. Devido \u00e0 longa guerra civil que vitimou o pa\u00eds e todas as transforma\u00e7\u00f5es das \u00faltimas d\u00e9cadas, ningu\u00e9m mais dan\u00e7a, por exemplo, o n\u2019golo de tchincuane (tanga de couro), como foi retratado por Neves e Sousa meio s\u00e9culo atr\u00e1s. Talvez o mais correto seja imaginar o n\u2019golo e as outras lutas e jogos de combate ainda existentes na Angola contempor\u00e2nea como primos mais ou menos distantes da capoeira brasileira. Findo o tr\u00e1fico negreiro, as t\u00e9cnicas de combate corporal que existiam dos dois lados do Atl\u00e2ntico teriam evolu\u00eddo em dire\u00e7\u00f5es diversas, o que explicaria n\u00e3o s\u00f3 suas semelhan\u00e7as, mas tamb\u00e9m suas tremendas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Pesquisa realizada por: Jos\u00e9 Lucas P. Souza \/\/ Folha do Piraju\u00e7ara<\/p>\n<p>*fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/portalcapoeira.com\/capoeira\/publicacoes-e-artigos\/a-danca-da-zebra\/\">A dan\u00e7a da zebra | Portal Capoeira<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As semelhan\u00e7as s\u00e3o impressionantes. 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