{"id":6613,"date":"2023-06-22T22:38:12","date_gmt":"2023-06-23T01:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6613"},"modified":"2023-06-23T22:45:26","modified_gmt":"2023-06-24T01:45:26","slug":"quilombo-do-jabaquara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/06\/22\/quilombo-do-jabaquara\/","title":{"rendered":"Quilombo do Jabaquara"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Quilombo Jabaquara constitu\u00eddo em 1882, \u00e9 produto n\u00e3o s\u00f3 dos libertos e fugidos da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m das demais regi\u00f5es paulistas. Isso por conta da \u201cdisposi\u00e7\u00e3o santista como um reduto de caifases e militantes abolicionistas\u201d. O terreno, arrendado aos negros por um italiano, contou com 2 a 20 mil \u201csubtra\u00eddos \u00e0 escravid\u00e3o\u201d ao longo dos 6 anos de funcionamento do quilombo.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Quilombo do Jabaquara foi o mais famoso da regi\u00e3o de Santos\/Sp, um dos maiores do Brasil e estima-se que tenha abrigado 10 mil escravizados. Fundado em 1882, por iniciativa dos abolicionistas da elite santista Am\u00e9rico Martins e Xavier Pinheiro teve como l\u00edder o negro alforriado Quintino de Lacerda. Quintino arrebanhava os fugitivos, os recebia na comunidade e expulsava os capit\u00e3es-do-mato que os perseguiam.<\/p>\n<p>O Quilombo do Jabaquara era de dif\u00edcil acesso, atr\u00e1s da Santa Casa Velha de Santos. Ocupava um extenso espa\u00e7o perto do Morro do Bufo, logo ap\u00f3s a sa\u00edda do t\u00fanel Rubens Ferreira Martins, formado por uma s\u00e9rie de pequenas casas ligadas entre si e por um grande barrac\u00e3o, onde tamb\u00e9m havia um armaz\u00e9m para fornecimento de alimentos. Os encontros, reuni\u00f5es, descanso e festejos aconteciam no p\u00e1tio em frente ao terreiro.<\/p>\n<p>Em Ventos do Mar, Maria L\u00facia Gitahy registra como o historiador Jos\u00e9 Maria dos Santos, autor de Os Republicanos Paulistas e a Aboli\u00e7\u00e3o (1942, p. 183), descreve o quilombo do Jabaquara:\u00a0<em>&#8220;constru\u00edram de madeira, de palha, de taipa e de folhas de zinco numerosas barracas e habita\u00e7\u00f5es ligeiras de todos os g\u00eaneros. Abriram-se caminhos, criou-se um pequeno com\u00e9rcio de varejo e, como por encanto, surgiu da noite para o dia a mais desconchavada e pitoresca das cidades, toda cercada de ro\u00e7as, com o azulado fuma\u00e7ar dos fornos de carv\u00e3o vegetal a cobri-la perenemente.&#8221;<\/em>\u00a0(GITAHY,1992, p.34)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"eltd-ls-item-title-inner\" style=\"text-align: center;\">Quintino, o l\u00edder do Quilombo do Jabaquara<\/h3>\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Negro sergipano,\u00a0<strong>Quintino de Lacerda<\/strong>\u00a0chegou a Santos como liberto, ex-escravo da fam\u00edlia Lacerda. Tinha bom relacionamento tanto com negros e negras quanto com a elite branca santista. Alguns membros dessa elite, por exemplo, cederam terras para a instala\u00e7\u00e3o do Quilombo do Jabaquara e indicaram Quintino para coorden\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Foi um dos maiores quilombos do Brasil: os dados variam entre 3 mil e 10 mil o n\u00famero de negros e negras que teriam se abrigado ali (regi\u00e3o onde atualmente est\u00e1 o centro de treinamento do Santos, o Morro do Fontana, a subida do Morro do Jabaquara).<\/p>\n<p>Apesar da sua import\u00e2ncia na luta pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravizados, Quintino tem sido visto como figura controversa, justamente por sua proximidade e tr\u00e2nsito entre as elites. \u00c9 um aspecto interessante que permeia a hist\u00f3ria do Quilombo do Jabaquara. Verdade que Quintino tinha bom tr\u00e2nsito entre a elite. No entanto, sua atua\u00e7\u00e3o no quilombo, no apoio ao fugidos das fazendas do interior paulista, \u00e0 luta em defesa da Rep\u00fablica e, principalmente, pela coloca\u00e7\u00e3o de libertos e libertas no mercado de trabalho foi important\u00edssima. Inclusive, ele utiliza-se dessa rela\u00e7\u00e3o com brancos endinheirados para abrir caminhos. Claro que h\u00e1 controv\u00e9rsias e paradoxos. Quem n\u00e3o os tem?<\/p>\n<p>Quintino era frequentemente elogiado por respeitados senhores que se diziam abolicionistas, como Silva Jardim. Elogios &#8211; bom que se diga &#8211; carregados de preconceito e espanto com a &#8216;capacidade&#8217; de um homem &#8216;negro excepcional&#8217;, como fica evidente nesta declara\u00e7\u00e3o de Silva Jardim registrada por Ana L\u00facia Duarte Lanna no livro \u00b4Uma cidade em Transi\u00e7\u00e3o \u2013 Santos (1870 a 1913)`:<\/p>\n<p>&#8220;O bom preto tornara-se garantia de ordem para a cidade, exercia o cargo de inspetor de quarteir\u00e3o e era como tal muito estimado&#8230; Tinha todas as qualidades f\u00edsicas de chefe, era modesto, gastava com os seus as suas economias, era humilde (n\u00e3o abra\u00e7ava os l\u00edderes, brancos \u00e9 claro, do movimento que iam visit\u00e1-lo), era bom pai e amava sua companheira&#8230; Prova que m\u00e9rito mesmo intelectual n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 com letrados; porque ele vira claro sua miss\u00e3o, excelente negro! Demonstra\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel de que sua ra\u00e7a podia produzir tipos dignos.&#8221; (LANNA, 1996, p.192)<\/p>\n<p>Uma esp\u00e9cie de bate e assopra, destacando as habilidades f\u00edsicas, ao mesmo tempo em que ressalta o fato de Quintino ser analfabeto. Ora, o que Silva Jardim queria dizer, na verdade, era algo que ficou no imagin\u00e1rio do branco \u00b4civilizado`: o bom preto, o &#8216;preto de alma branca&#8217;.<\/p>\n<p>Quintino foi inspetor de quarteir\u00e3o, liderou o Jabaquara e foi arrendat\u00e1rio e administrador de Benjamim Fontana, imigrante que tinha propriedade de terras justamente nas cercanias da \u00e1rea onde fora instalado o quilombo. Participou de for\u00e7as leais \u00e0 Rep\u00fablica, na Revolta da Armada (1893), foi condecorado como Major Honor\u00e1rio do Ex\u00e9rcito. Por esse esfor\u00e7o, foi homenageado e presenteado com um rel\u00f3gio de ouro, outro aspecto bastante ressaltado nas cita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Quintino envolveu-se na pol\u00edtica das elites sempre como for\u00e7a mediadora entre elas e as classes trabalhadoras negras. Esse papel lhe conferiu destaque em momentos cruciais da pol\u00edtica local. (&#8230;) Os cargos e fun\u00e7\u00f5es a ele reservados tiveram sempre uma fun\u00e7\u00e3o coercitiva: inspetor de quarteir\u00e3o, major do ex\u00e9rcito, inspetor sanit\u00e1rio. Entretanto, estes cargos n\u00e3o lhe garantiram a propriedade da terra e moradia na \u00e1rea do antigo quilombo&#8221;, escreve Ana Lanna (p.194-195).<\/p>\n<p>O terreno onde Quintino de Lacerda morava, no Jabaquara, pertencia ao imigrante italiano Benjamim Fontana, propriedade essa que era questionada pelos empreendedores C\u00e2ndio Gaffr\u00e9e e Eduardo Guinle, entre outros interessados, principalmente com o in\u00edcio das obras de infraestrutura na cidade. Logo ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o, no mesmo ano de 1888, veio a autoriza\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do primeiro trecho de cais do porto e essa batalha se intensificou. O que era quilombo deveria ceder lugar \u00e0 pedreira que forneceria material para as moderniza\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio Benjamim Fontana passou a reivindicar sua \u00e1rea.<\/p>\n<p>&#8220;O antigo comandante do quilombo passou a ser um inc\u00f4modo perante as novas possibilidades de uso e explora\u00e7\u00e3o destes terrenos. E isso parecia agora, j\u00e1 na virada para o s\u00e9culo XX, mais importante do que a necessidade de garantir ordem para a cidade, reprimindo os &#8216;\u00edmpetos naturalmente b\u00e1rbaros da negrada'&#8221;, afirma Lanna (p.211).<\/p>\n<p>Quintino tamb\u00e9m arregimentava negros para trabalharem na pedreira que tomou o lugar do quilombo e no porto. Inclusive, nas primeiras paralisa\u00e7\u00f5es do trabalho, no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX, os trabalhadores negros foram acusados de \u00b4fura-greves` pelos oper\u00e1rios, principalmente imigrantes europeus.<\/p>\n<p>Eleito vereador, Quintino de Lacerda sofreu boicotes e preconceitos (negro e analfabeto). Parlamentares que se opunham \u00e0 presen\u00e7a do l\u00edder quilombola tentaram destituir a C\u00e2mara Municipal. Quintino foi \u00e0 Justi\u00e7a &#8211; mais uma luta &#8211; e ganhou o direito de assumir o cargo.<\/p>\n<p>Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, aos 43 anos. No dia seguinte, de acordo com os jornais A Tribuna do Povo e Di\u00e1rio de Santos, uma multid\u00e3o tomou as ruas para acompanhar seu enterro no cemit\u00e9rio do Paquet\u00e1. Os jornais estimam que entre 800 a 2 mil pessoas seguiram o bonde especialmente preparado para a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisa: Jose Lucas\/Folha do Piraju\u00e7ara<\/p>\n<p>Fontes: <a href=\"http:\/\/www.resjeroteirosbaixadasantista.prceu.usp.br\/\">http:\/\/www.resjeroteirosbaixadasantista.prceu.usp.br\/\u00a0<\/a> <a href=\"https:\/\/www.novomilenio.inf.br\/\">https:\/\/www.novomilenio.inf.br\/<\/a> https:\/\/mapamnt.procomum.org\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Quilombo Jabaquara constitu\u00eddo em 1882, \u00e9 produto n\u00e3o s\u00f3 dos libertos e fugidos da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m das demais<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6614,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-6613","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6613"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6613"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6613\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6615,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6613\/revisions\/6615"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}