{"id":6616,"date":"2023-06-26T10:00:17","date_gmt":"2023-06-26T13:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6616"},"modified":"2023-06-26T10:48:09","modified_gmt":"2023-06-26T13:48:09","slug":"escravos-da-religiao-os-escravizados-pela-igreja-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/06\/26\/escravos-da-religiao-os-escravizados-pela-igreja-no-brasil\/","title":{"rendered":"Escravos da religi\u00e3o: os escravizados pela Igreja no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Na \u00e9poca da escravid\u00e3o no Brasil, as pessoas escravizadas pela Igreja eram chamadas de \u201cescravos da religi\u00e3o\u201d. Os escravizados mantidos por mosteiros e conventos tamb\u00e9m eram obrigados a professar a f\u00e9 cat\u00f3lica, participando de missas, momentos de ora\u00e7\u00f5es e recebendo os sacramentos.<\/p>\n<p>Os que se rebelavam quanto \u00e0 convers\u00e3o costumavam ser punidos com castigos \u201cde forma exemplar\u201d, ou seja, com intensidade suficiente para convencer os demais a n\u00e3o repetir gestos de desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a luta pela aquisi\u00e7\u00e3o de liberdade \u2014 a compra de uma carta de alforria \u2014 costumava ser mais dif\u00edcil para um escravo de ordem religiosa do que para algu\u00e9m que estivesse sob o jugo de um senhor leigo.<\/p>\n<p>\u201cNa hora de qualificar os pais, o monge n\u00e3o os qualificava como \u2018escravos da Ordem de S\u00e3o Bento\u2019, mas sim como \u2018escravos da religi\u00e3o&#8217;\u201d, conta o historiador Vitor Hugo Monteiro Franco,\u00a0autor do livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado \u2018Escravos da Religi\u00e3o\u2019 (Ed. Appris), pesquisador na Universidade Federal Fluminense (UFF) e idealizador do podcast \u2018Atl\u00e2ntico Negro\u2019.<\/p>\n<p>Estudando os arquivos da Ordem de S\u00e3o Bento desde 2014, o pesquisador descobriu como viviam as pessoas escravizadas pela Igreja.<\/p>\n<p>\u201cUma das principais descobertas foi o pr\u00f3prio termo \u2018escravos da religi\u00e3o&#8217;\u201d, conta.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, residia a\u00ed uma diferen\u00e7a fundamental entre o modo de vida dos escravizados mantidos por institui\u00e7\u00f5es religiosas: o fato de o senhor n\u00e3o ser uma pessoa, mas sim uma entidade.<\/p>\n<p>\u201cParece simples, mas n\u00e3o \u00e9. A situa\u00e7\u00e3o geral da escravid\u00e3o no Brasil \u00e9 de escravos privados, de senhores leigos. No caso dos \u2018da religi\u00e3o\u2019, eles n\u00e3o pertenciam a um monge espec\u00edfico, eram de propriedade coletiva. E isso teve repercuss\u00f5es na vida dessas pessoas para sempre, porque influenciava na forma, no dia a dia deles\u201d, diz o historiador.<\/p>\n<p>Franco ressalta que o cotidiano desses negros escravizados estava \u201cregulado\u201d pelos h\u00e1bitos religiosos do catolicismo e da vida mon\u00e1stica.<\/p>\n<p>\u201cOs monges conheciam cada momento, cada fase da vida dos seus escravizados. Por mais que as propriedades fossem enormes, eles tinham o controle administrativo sobre aquelas pessoas, ao contr\u00e1rio dos senhores leigos, que muitas vezes tinham um contato muito pequeno com os escravizados\u201d, compara.<\/p>\n<p>\u201cIsso dava (aos religiosos) um poder muito grande. Ser \u2018escravo da religi\u00e3o\u2019 significava ter sua vida controlada por uma institui\u00e7\u00e3o religiosa\u201d, acrescentou Monteiro Franco.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era um rebanho pequeno para ser controlado. De acordo com as pesquisas de Franco, quando os religiosos emanciparam seus escravos, em 1871, somente os beneditinos tinham um total de 4 mil escravizados.<\/p>\n<p>\u201cEram tr\u00eas as principais ordens religiosas escravistas do Brasil: os jesu\u00edtas, os beneditinos e os carmelitas. Em menor escala, os franciscanos tamb\u00e9m\u201d, elenca.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gravidez de escravizadas incentivada pela igreja<\/strong><\/p>\n<p>Uma maneira de garantir a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra escrava era o incentivo que os monges davam para que as escravizadas tivessem muitos filhos.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres que procriavam pelo menos seis filhos conseguiam privil\u00e9gios, tais como n\u00e3o realizarem trabalhos \u2018penosos&#8217;\u201d, conta o historiador Robson Pedrosa Costa, autor do livro \u2018Os Escravos do Santo\u2019 (Editora UFPE) e professor no Instituto Federal de Pernambuco e na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).<\/p>\n<p>A partir de 1866, os benef\u00edcios \u00e0s m\u00e3es de pelo menos seis filhos passaram a ser a liberdade gratuita \u2014 desde que elas \u201cestivessem devidamente casadas\u201d, pontua o historiador.<\/p>\n<p>Para os monges senhores de escravos, religi\u00e3o era uma coisa, neg\u00f3cios eram outra. Pelo menos \u00e9 o que fica claro em outro achado do historiador Monteiro Franco: nos registros de batismo, a maior parte das crian\u00e7as era registrada como sendo filho de m\u00e3e solteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Viol\u00eancia contra os escravizados pela Igreja<\/strong><\/p>\n<p>O historiador Vitor Hugo Monteiro Franco encontrou registros que atestam atos de crueldade. \u201cTem um caso, em um fazenda de Cabo Frio, tamb\u00e9m dos beneditinos, em que dois monges foram presos depois de matarem, de tanto espancar, um escravizado. Isso no s\u00e9culo 18\u201d, conta. \u201cOlha o n\u00edvel da viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Pr\u00e1tica relativamente comum entre escravizados no Brasil, a compra da liberdade era mais dif\u00edcil para um \u201cescravo da religi\u00e3o\u201d. Enquanto no caso daquele que servia a um senhor leigo bastava convenc\u00ea-lo \u2014 com acordos e, muitas vezes, um valor em dinheiro \u2014 no caso dos monges era preciso passar por um processo formal.<\/p>\n<p>As ordens religiosas libertaram seus escravos ao longo de 1871, 17 anos antes da Lei \u00c1urea. A primeira institui\u00e7\u00e3o a fazer isso foi a Ordem de S\u00e3o Bento. Aos poucos, os beneditinos foram seguidos pelos demais religiosos.<\/p>\n<p>Pesquisa: Jose Lucas<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/observatorio3setor.org.br\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00e9poca da escravid\u00e3o no Brasil, as pessoas escravizadas pela Igreja eram chamadas de \u201cescravos da religi\u00e3o\u201d. 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