{"id":6629,"date":"2023-06-27T00:00:12","date_gmt":"2023-06-27T03:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6629"},"modified":"2023-06-26T23:38:02","modified_gmt":"2023-06-27T02:38:02","slug":"ama-de-leite-a-mae-preta-que-criou-o-brasil-e-os-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/06\/27\/ama-de-leite-a-mae-preta-que-criou-o-brasil-e-os-brasileiros\/","title":{"rendered":"Ama de leite, a m\u00e3e preta que criou o Brasil e os brasileiros"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6630\" src=\"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MAE-PRETA-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MAE-PRETA-300x200.jpg 300w, https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MAE-PRETA.jpg 650w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A mulher negra, jovem, est\u00e1 sentada no ch\u00e3o. \u00c9 jovem, alta, corpulenta, bra\u00e7os fortes, p\u00e9s gra\u00fados. Amamentando\u00a0um beb\u00ea branco ao colo enquanto olha para um nen\u00e9m negro que est\u00e1 deitado ao lado. Tem um ar melanc\u00f3lico, talvez resignado. A crian\u00e7a preta est\u00e1 atenta \u00e0 m\u00e3e, como quem espera a sua vez de tomar do leite materno.<\/p>\n<p>M\u00e3e Preta foi feita duas d\u00e9cadas depois da lei que extinguiu, oficialmente, a escravid\u00e3o no Brasil. O autor, o piauiense Luc\u00edlio de Albuquerque exibiu a obra pela primeira vez no Sal\u00e3o de Belas Artes de 1912, no Rio de Janeiro. Faz parte do acervo do Museu de Arte da Bahia.<\/p>\n<p>Tem a for\u00e7a de uma obra de arte, 180 cm x 130 cm, \u00f3leo sobre tela, mas n\u00e3o \u00e9 uma iconografia rara da escravid\u00e3o no Brasil. \u00c9 tristemente rico o acervo de fotos de amas de leite com os filhos das sinh\u00e1s.<\/p>\n<p>Muitos de nossos pensadores mais importantes, brancos, foram amamentados por mulheres negras, entre eles o abolicionista Joaquim Nabuco.<\/p>\n<p>Filho de um eminente advogado baiano, senador da Rep\u00fablica, Quinquim nasceu em 1849, \u00e0s margens do rio Capiberibe, no Recife. Ainda beb\u00ea, foi morar com os padrinhos no Massangano, engenho de Pernambuco. At\u00e9 os 8 anos, cresceu sob os cuidados da madrinha, Ana Rosa, e de uma rede de escravos que lhe serviam o tudo \u2013 a comida, o banho, o banheiro, as traquinagens.<\/p>\n<p>Em Minha Forma\u00e7\u00e3o, sua autobiografia, Nabuco cita \u2013 de passagem e sem lhe dar nome \u2013 a negra que o amamentou e dele cuidou: \u201cA noite da morte de minha madrinha \u00e9 a cortina preta que separa do resto de minha vida a cena de minha inf\u00e2ncia. Eu n\u00e3o imaginava nada, dormia no meu quarto com minha velha ama, quando ladainhas entrecortadas de solu\u00e7os me acordaram e me comunicaram o terror de toda a casa.\u201d<\/p>\n<p>Com a morte de Ana Rosa, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro. Mas foi preciso levar a m\u00e3e preta junto: \u201cO menino est\u00e1 mais satisfeito depois que eu lhe disse que a sua ama o acompanharia\u201d, escreveu o amigo encarregado de levar o garoto \u00e0 ent\u00e3o capital do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ama de leite, m\u00e3e preta de aluguel, era um of\u00edcio no Brasil escravocrata, de antes e de depois da Aboli\u00e7\u00e3o. An\u00fancios nos jornais de papel procuravam: \u201cPreta, com muito bom leite, prendada e carinhosa\u201d. Negras que alimentavam o corpo e alma dos beb\u00eas brancos. Era deles a primeira mamada, isso quando a m\u00e3e preta tinha filhos pr\u00f3prios e com eles podia ficar.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi uma inven\u00e7\u00e3o brasileira. \u201cA pr\u00e1tica das m\u00e3es ricas delegarem \u00e0s amas-de-leite a tarefa de amamentarem as crian\u00e7as foi trazida de Portugal para o Brasil\u201d, escreve Gilberto Freyre em Casa Grande &amp; Senzala. Sem m\u00e3e preta, talvez n\u00e3o houvesse nem Brasil nem brasileiros. As meninas brancas casavam-se muito cedo, logo depois da primeira menstrua\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o morriam de parto, n\u00e3o tinham fartura de leite. \u201cEntregar as crian\u00e7as \u00e0s mucamas para que fossem amamentadas e cuidadas era a alternativa poss\u00edvel\u201d, escreve o mestre de Apipucos.<\/p>\n<p>Escolhiam-se as amas de leite, continua Freyre, entre as mais limpas, mais bonitas, mais fortes \u201cpara dar de mamar a nhonh\u00f4, para nin\u00e1-lo, preparar-lhe a comida e o banho morno, cuidar-lhe da roupa, contar-lhe hist\u00f3rias, \u00e0s vezes substituir-lhes a pr\u00f3pria m\u00e3e\u201d. Para as escravas, ser m\u00e3e preta era a chance de sair da senzala para a casa grande. Mas a proximidade com os senhores as deixava mais expostas ao abuso sexual.<\/p>\n<p>As m\u00e3es negras forjaram o povo brasileiro \u00e0s custas de si mesmas e de seus filhos. Salve elas.<\/p>\n<div>\n<p class=\"m-advertise-colunas-blogs\"><em>* Este texto representa as opini\u00f5es e ideias do autor.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisa : Jose Lucas \/ Folha do Piraju\u00e7ara<\/p>\n<p>Fonte : <a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/conceicao-freitas\/ama-de-leite-a-mae-preta-que-criou-o-brasil-e-os-brasileiros\">Ama de leite, a m\u00e3e preta que criou o Brasil e os brasileiros | Metr\u00f3poles (metropoles.com)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mulher negra, jovem, est\u00e1 sentada no ch\u00e3o. \u00c9 jovem, alta, corpulenta, bra\u00e7os fortes, p\u00e9s gra\u00fados. Amamentando\u00a0um beb\u00ea branco ao<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6631,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-6629","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6629"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6629"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6629\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6632,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6629\/revisions\/6632"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}