{"id":6775,"date":"2023-07-25T22:16:55","date_gmt":"2023-07-26T01:16:55","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6775"},"modified":"2023-07-25T22:26:37","modified_gmt":"2023-07-26T01:26:37","slug":"rainha-zeferina-a-angolana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/07\/25\/rainha-zeferina-a-angolana\/","title":{"rendered":"Rainha Zeferina, a angolana"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Escravizada quilombola que participou de uma revolta nas cercanias de Salvador (BA), em 1826. Lutou armada e com gritos de guerra estimulava o seu grupo, foi presa e condenada a trabalhos for\u00e7ados.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zeferina, segundo Maria In\u00eas Cortes de oliveira no livro \u201cO liberto: o seu mundo e os outros\u201d tinha origem angolana e foi trazida crian\u00e7a ainda, uma vunje em desassossego de viagem transatl\u00e2ntica, na primeira metade do s\u00e9culo XIX, encolhida nos bra\u00e7os da sua m\u00e3e Am\u00e1lia, para Salvador. Sentiu a penumbra ag\u00f4nica da viagem no navio negreiro, ouviu o baque dos corpos negros no mar e percebeu que teria que ser grande para enfrentar as atrocidades da escraviza\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3e Am\u00e1lia, em saber matrilinear, lhe ensinou a tradi\u00e7\u00e3o dos ancestrais, lhe demonstrou como acessar os poderes das inquices para manter a sua espiritualidade e realeza soberana diante das barb\u00e1ries.<\/p>\n<p>No saber da oralidade documental, a hist\u00f3ria costurada no boca-a-boca, no fluir perseverante das vozes hist\u00f3ricas do povo negro, Zeferina foi uma rainha que fundou o Quilombo do Urubu,\u00a0 e uma sociabilidade baseada em modelos civilizat\u00f3rios africanos para se proteger e salvaguardar todo o seu povo da escravid\u00e3o. Foi uma l\u00edder com muito poder, a qual todos a reverenciava e seguia as suas estrat\u00e9gias de luta. Ela organizou \u00edndios, escravizados fugidos, ou melhor, homens e mulheres que cunharam a sua liberdade com coragem, e libertos, no geral, que queriam a liberta\u00e7\u00e3o para todos os negros na prov\u00edncia do Salvador.<\/p>\n<p>Zeferina tinha ambi\u00e7\u00f5es grandiosas, sabia que a liberdade de boca da mata, o quilombo, era um principio libertador, e que poderia ruir, haja vista o quilombo do Cabula que foi destru\u00eddo em 1807. Ela sabia disso, compreendia que era necess\u00e1rio se unir com os nag\u00f4s, invadir a cidade e matar os brancos escravocratas para constituir uma liberdade plena para todo o povo negro. O livro \u201cLiberdade por um fio: hist\u00f3ria dos quilombos no Brasil\u201d organizado por Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis e Fl\u00e1vio dos Santos Gomes, mostra isso, pois Reis (2003) fala do relato involunt\u00e1rio do presidente da prov\u00edncia se referindo a Zeferina com uma rainha e dos planos de invas\u00e3o dela a Salvador para matar os brancos e conseguir a liberdade.<\/p>\n<p>O planejamento do levante estava organizado para ocorrer no dia 25 de dezembro de 1826, no natal, como a pr\u00f3pria Zeferina, em depoimento no Forte do Mar, local onde eram presos todos os quilombolas, afirmou quando se encontrava aprisionada. No entanto, um acontecimento fez com que a revolta tivesse o seu in\u00edcio antecipado, pois no dia 17 de dezembro alguns capit\u00e3es do mato tentaram surpreender, pensando que havia poucas pessoas na mata do Urubu, e se depararam com cinquenta mulheres e homens aquilombados com espingardas, facas, arcos e flechas e fa\u00e7\u00f5es, que sobre o comando de Zeferina os derrotaram. Assim, tr\u00eas capit\u00e3es do mato foram mortos e outros tr\u00eas sa\u00edram gravemente feridos, conseguiram escapar e j\u00e1 em matas do Cabula encontraram o comandante de tropa, Jose Baltazar da Silveira, com doze soldados e um cabo, vindo de Salvador para sufocar o levante. A eles se juntaram mais de vinte soldados das mil\u00edcias de Piraj\u00e1 e foram atacar o Quilombo do Urubu.<\/p>\n<p>Zeferina com arco e flecha na m\u00e3o confrontou com os seus s\u00faditos toda a guarni\u00e7\u00e3o que, por ordem de Jose Baltazar da Silveira, abriu fogo contra os aquilombados que resistiram motivados pelo grito de guerra, o qual ecoou por todo o Urubu como uma onda sonora muito poderosa: \u201cMorra branco e vivo negro! Morra branco e vivo negro! Morra branco e vivo o negro!\u201d Foram intr\u00e9pidos e corajosos na luta, mesmo estando em desvantagem, pois as tropas policias tinham as armas de fogo \u2013 maior poder letal nas suas a\u00e7\u00f5es no combate. No final, uma mulher e tr\u00eas homens do quilombo foram mortos, alguns fugiram e outros foram presos juntamente com a rainha Zeferina. Eles tentaram, em desfile de quebranto da sua realeza, destitu\u00ed-la do seu orgulho; levando-a amarrada do quilombo do Urubu at\u00e9 a Pra\u00e7a da S\u00e9 com todas as ofensas e \u00f3dio racial\u00a0dos escravocratas de Salvador.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se abateu, seguiu altiva e poderosa diante dos olhares \u2013 fel de atrocidades dos brancos \u2013 que a viam passar. Zeferina tinha a sua espiritualidade enraizada no poder das inquices, pilar que n\u00e3o permitiu esmorecer diante das impetra\u00e7\u00f5es dos escravocratas. Ela sabia que era grande e t\u00eam batalhas, mesmo que pare\u00e7am perdidas, n\u00e3o s\u00e3o; servem como liames poderosos que v\u00e3o costurando as lutas das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o estros que motivam os novos esp\u00edritos \u00e0 luta. Assim, seguiu firme e faleceu, sem fraquejar em seus ideais, no Forte do Mar, e teve, segundo a tradi\u00e7\u00e3o oral da regi\u00e3o, perpassada pelos v\u00e1rios terreiros de candombl\u00e9, o seu corpo enterrado nas terras do Cabula.<\/p>\n<p>No Quilombo do Urubu havia, na sua constitui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. uma lenda, que at\u00e9 hoje comp\u00f5e o imagin\u00e1rio dos remanescentes quilombolas. Ela aparece transcrita na disserta\u00e7\u00e3o \u201cO poder de Zeferina no Quilombo do Urubu\u201d de Silvia Maria Silva Barbosa. \u00a0Nessa lenda o urubu \u00e9 um p\u00e1ssaro m\u00edtico, que deu nome ao quilombo, e que nos momentos dif\u00edceis das batalhas, as grandes sacerdotisas entravam em transe, invocavam esse p\u00e1ssaro, enviando-os at\u00e9 a \u00c1frica, em voo de \u00e1guia veloz e poderosa, para que levassem os clamores, as ora\u00e7\u00f5es, as demandas e pedidos de ajuda aos ancestrais, \u00e0s deusas e deuses do pante\u00e3o negro. O urubu era o p\u00e1ssaro correio que ia \u00e0 \u00c1frica e trazia as respostas \u00e0s s\u00faplicas, trazia o ax\u00e9 para fortalecer o esp\u00edrito dos quilombolas a continuarem lutando.<\/p>\n<p>O mocambo principal do Quilombo do Urubu, onde as hordas de guerreiras e guerreiros se organizavam, teciam a sua liberdade e at\u00e9 hoje se constitui um local sagrado para o povo de santo \u2013 \u00e9 o Parque S\u00e3o Bartolomeu, uma das \u00faltimas \u00e1reas verdes da cidade, localizado entre o bairro Piraj\u00e1 e o Sub\u00farbio Ferrovi\u00e1rio de Salvador. S\u00e3o bairros que at\u00e9 o momento os reminiscentes de quilombo enfrentam o genoc\u00eddio \u00e0 juventude negra, o racismo estrutural, as imprecau\u00e7\u00f5es, intoler\u00e2ncias e persegui\u00e7\u00f5es com as religi\u00f5es afro.<\/p>\n<p>Zeferina, assim, \u00e9 um arqu\u00e9tipo, \u00e9 o poder matrilinear que vem \u2013 relacionado aos povos de culturas bantos \u2013 desde Nzinga, e na conjuntura de escravid\u00e3o no s\u00e9culo XIX, em Salvador, se transp\u00f4s nela e se transp\u00f5e ainda em muitas mulheres negras que lutam nessa di\u00e1spora dos desassossegos para se manterem vivas, manterem vivas as suas filhas(os), as suas comunidades, o seu povo. Penso, por pressuposi\u00e7\u00e3o ficcional, que nos momentos mais dif\u00edceis a rainha vislumbrou\u00a0que haver\u00e1 de chegar o dia em que o urubu, o p\u00e1ssaro correio m\u00edtico, ir\u00e1 enviar uma mensagem, n\u00e3o mais de s\u00faplica aos ancestrais divinizados, mas de alegria pela grande vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pesquisa : Jose Lucas \/ Folha do Piraju\u00e7ara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escravizada quilombola que participou de uma revolta nas cercanias de Salvador (BA), em 1826. 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