{"id":6884,"date":"2023-08-09T06:49:14","date_gmt":"2023-08-09T09:49:14","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=6884"},"modified":"2023-08-09T06:49:14","modified_gmt":"2023-08-09T09:49:14","slug":"a-rota-da-liberdade-do-negro-cosme-bento-das-chagas-e-a-balaiada-1838-1841","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/08\/09\/a-rota-da-liberdade-do-negro-cosme-bento-das-chagas-e-a-balaiada-1838-1841\/","title":{"rendered":"A rota da liberdade do negro Cosme Bento das Chagas e a Balaiada (1838-1841)"},"content":{"rendered":"<p>Na prov\u00edncia do Maranh\u00e3o, h\u00e1 182 anos, ocorreu uma c\u00e9lebre revolta de escravos. A insurrei\u00e7\u00e3o de milhares de negros (1838-1840) liderados por Cosme Bento das Chagas tornou-se o fermento mais explosivo durante a Balaiada (1838-1841). Aquele acontecimento revelou um aumento do n\u00edvel de amadurecimento dos negros escravos pois, atrav\u00e9s da insurrei\u00e7\u00e3o buscaram superar a escravid\u00e3o (ap\u00f3s sucessivas fugas e a constitui\u00e7\u00e3o de diversos n\u00facleos de quilombolas) impondo uma forma mais incisiva de resist\u00eancia \u00e0quela sociedade escravista. Tamanha era a resist\u00eancia ao trabalho e \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escravo que, quando eclodiu a Balaiada (1838), a revolta dos negros e os numerosos quilombos j\u00e1 sacudiam todo o Maranh\u00e3o. E todo aquele movimento ganhou mais consci\u00eancia quando liderado pelo negro Cosme Bento das Chagas. Inclusive, a insurrei\u00e7\u00e3o escrava teve continuidade mesmo ap\u00f3s o fim da revolta dos balaios (1841). Tamb\u00e9m, antigos e novos n\u00facleos de quilombos se mantiveram ou foram criados, alguns concentrando cerca de 400 a 500 quilombolas.<br \/>\n<em>Fabricantes de balaios do s\u00e9culo XIX.<\/em><\/p>\n<p>No Maranh\u00e3o, constitu\u00edram-se, inicialmente, pequenos n\u00facleos esparsos de terras produtoras de a\u00e7\u00facar. Em 1622, os primeiros engenhos foram constru\u00eddos. Desde ent\u00e3o, a lavoura canavieira n\u00e3o alcan\u00e7ou grandes \u00edndices de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o. E, ainda, esteve constantemente amea\u00e7ada por grupos ind\u00edgenas, pela escassez de m\u00e3o-de-obra e por dificuldades comerciais. De qualquer forma, a prov\u00edncia do Maranh\u00e3o estava plenamente integrada social e economicamente na conjuntura e estrutura coloniais com as suas terras, engenhos e escravos, e com a economia de subsist\u00eancia (a coleta das \u201cdrogas do sert\u00e3o\u201d, a pesca, a ca\u00e7a, a pequena lavoura e a pecu\u00e1ria). Devido ao fato de que a maior quantidade de escravos negros ser absorvida pelas zonas a\u00e7ucareiras de Pernambuco e da Bahia, o problema da constante escassez de m\u00e3o-de-obra foi \u201cresolvido\u201d pelo aumento do trabalho escravo nativo. No entanto, a oposi\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica se op\u00f4s \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo ind\u00edgena, mas n\u00e3o a do trabalho escravo negro. Estes tratados com extremo rigor e viol\u00eancia, andavam quase nus e recebiam uma alimenta\u00e7\u00e3o insuficiente, geralmente, uma espiga de milho para o almo\u00e7o, arroz e farinha para o jantar.<\/p>\n<p>Foi, particularmente, desde a 2a metade do s\u00e9culo XVIII, que se registrou um grande aumento de escravos negros, vindos das regi\u00f5es de Cacheu, Bissau e de Angola. A mudan\u00e7a de composi\u00e7\u00e3o racial da sociedade escravista maranhense refletiu principalmente no decorrer do s\u00e9culo XIX, em significativas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, modificou ainda os padr\u00f5es e valores sociais. Em conseq\u00fc\u00eancia, a sociedade escravista maranhense foi abalada por diversos conflitos. Em grande parte deles, a ativa participa\u00e7\u00e3o de escravos e mesti\u00e7os foi de grande import\u00e2ncia. Por conseq\u00fc\u00eancia, a constante resist\u00eancia ao trabalho for\u00e7ado se refletiu hist\u00f3rica, individual e socialmente atrav\u00e9s de fugas, suic\u00eddios, insurrei\u00e7\u00f5es e de crimes contra a condi\u00e7\u00e3o imposta de ser escravo. Mas, apesar de toda a forma de repress\u00e3o contra aqueles atos de resist\u00eancia, o fundamental \u00e9 que os escravos (submetidos como \u201ccoisas\u201d e como homens) \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de propriedades de outros homens, demarcavam a necessidade de se continuar a luta contra a coisifica\u00e7\u00e3o e a favor da afirma\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p>As grandes lavouras de arroz e algod\u00e3o logo se expandiram pelo interior do sert\u00e3o, criando tens\u00f5es por onde desalojava as antigas fazendas de gado. Todo aquele movimento de incremento do trabalho escravo negro (cujo pre\u00e7o foi crescente) levou \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o ou depend\u00eancia gradativa dos propriet\u00e1rios de terras e de escravos aos controladores do tr\u00e1fico negreiro. Este fato tamb\u00e9m incrementou o tr\u00e1fico interno de escravos negros para as prov\u00edncias do Maranh\u00e3o, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro entre 1801 e 1839. A necessidade crescente de escravos negros produziu um fato significativo. Na 1a metade do s\u00e9culo XIX (ou por volta de 1822), a popula\u00e7\u00e3o total do Maranh\u00e3o, excetuando os \u00edndios, era estimada em cerca de 152 mil e 800 habitantes, sendo que a propor\u00e7\u00e3o de escravos negros estava na casa de dois para cada \u201chomem livre\u201d. Nas cidades, vilas, povoa\u00e7\u00f5es e fazendas, al\u00e9m da exist\u00eancia de negros escravos, havia os negros livres, fato este que poderia, certamente, elevar o n\u00famero de negros. A expans\u00e3o das lavouras de algod\u00e3o para o sert\u00e3o maranhense e a conseq\u00fcente necessidade do aumento do tr\u00e1fico de escravos negros produziu grandes concentra\u00e7\u00f5es de escravos no interior. E, a presen\u00e7a de pouca vigil\u00e2ncia facilitou (desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII) as fugas di\u00e1rias e a constitui\u00e7\u00e3o de diversos quilombos, onde os ex-escravos mantinham casas, planta\u00e7\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em alguns quilombos exploravam-se minas de ouro, o que permitia que se mantivessem mais rela\u00e7\u00f5es comerciais com os povoados pr\u00f3ximos, possibilitando a compra de v\u00edveres, tecidos, armas e muni\u00e7\u00f5es. Outros quilombolas viviam de forma dispersa, em casebres no interior das matas, praticando a agricultura e optando pelo isolamento. As trilhas que levavam at\u00e9 os quilombos eram diversas. Por volta de 1850, alguns daqueles quilombos tinham mais de 40 anos! Era comum os quilombos serem reconstru\u00eddos ap\u00f3s imporem grandes resist\u00eancias \u00e0s tropas oficiais. Renasciam das cinzas de planta\u00e7\u00f5es e casebres destru\u00eddos, reconstruindo assim a rota da liberdade.<\/p>\n<p>Muitos quilombos criados no decorrer do per\u00edodo eram, como testemunham as numerosas \u00e1reas Remanescentes de Comunidades de Quilombos, registros atuais daqueles acontecimentos hist\u00f3ricos. Neste ponto, acentuamos que entre os her\u00f3is da hist\u00f3ria brasileira devemos enaltecer alguns participantes ativos de revoltas ou insurrei\u00e7\u00f5es escravas e populares anteriores e posteriores ao s\u00e9culo XIX, como o nome de Cosme Bento das Chagas.<\/p>\n<p><em>(\u2026) Por outro lado, dever\u00edamos aprender a negar Duque de Caxias, historicamente imposto aos brasileiros como um dos her\u00f3is nacionais quando, uma das suas atividades mais constantes foi a de ser um aut\u00eantico representante dos interesses das elites brasileiras e um implac\u00e1vel destruidor de quilombos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Estes foram espa\u00e7os sociais, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos conquistados por negros. E, estabeleceram rotas da liberdade contr\u00e1rias \u00e0s rotas do tr\u00e1fico de escravos, da escravid\u00e3o, do a\u00e7oite, da submiss\u00e3o, da pobreza, da mis\u00e9ria, do racismo, da exclus\u00e3o social e racial.<\/p>\n<p>No Maranh\u00e3o, era significativa a presen\u00e7a dos interesses comerciais ingleses, provocando constantes rea\u00e7\u00f5es de setores nacionais e portugueses. De maneira geral, os per\u00edodos de prosperidade que produtos como o algod\u00e3o e o a\u00e7\u00facar alcan\u00e7aram no mercado internacional beneficiava diretamente os setores e os interesses dominantes do com\u00e9rcio ou do tr\u00e1fico de escravos. A grande maioria sobrevivia presa \u00e0 escassez de produtos de subsist\u00eancia, `a submiss\u00e3o, ao escravismo e \u00e0 viol\u00eancia. Longe, portanto, das camadas sociais ou fam\u00edlias que viviam envoltas pela opul\u00eancia e fortuna.<\/p>\n<p>Especialmente, os senhores de engenho (que, assim como os colonos brancos, eram em sua maioria analfabetos e embrutecidos) que concentravam poder, prest\u00edgio social e econ\u00f4mico, condi\u00e7\u00e3o que era alimentada pela manuten\u00e7\u00e3o dos grilh\u00f5es da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>De uma maneira geral, negros, \u00edndios e mesti\u00e7os eram social e racialmente desprezados pelos brancos e, \u00e9 necess\u00e1rio acentuar que, tamb\u00e9m era comum a rejei\u00e7\u00e3o dos negros pelos mesti\u00e7os. Na sociedade maranhense de ent\u00e3o, havia casos exemplares de crioulas e mesti\u00e7as amasiadas com ricos e poderosos locais que viviam rodeadas de fartura, j\u00f3ias e de escravos. Por\u00e9m, a grande maioria das mesti\u00e7as de tudo fazia para parecer mais brancas e, em decorr\u00eancia, rejeitavam abertamente negros e \u201cmulatos\u201d que n\u00e3o podiam maquiar as suas origens social e racial. E, foi exatamente no sert\u00e3o onde se deu uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre brancos e \u00edndios, resultando em uma numerosa popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a. Posteriormente, com o avan\u00e7o das grandes lavouras e com a introdu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra escrava africana (nas planta\u00e7\u00f5es, nos trabalhos artesanais \u2013 onde o negro convivia com homens livres assalariados \u2013 e nos servi\u00e7os dom\u00e9sticos) resultou em um crescente n\u00famero de mesti\u00e7os entre negros e brancos e, tamb\u00e9m, entre negros e \u00edndios.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es sociais pautadas na \u201cra\u00e7a\u201d chegaram ao ponto de as fam\u00edlias brancas rejeitarem a mistura racial, determinando que a permiss\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e dos casamentos deveria estar ligada \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o da genealogia ou dos antecedentes dos pretendentes. A pureza \u00e9tnica ou racial deveria estar presente e comprovada at\u00e9 os tetrav\u00f3s!!! O ideal social e racialmente positivo era ser \u201cbranco puro\u201d. Os mulatos eram estigmatizados e, ser \u201cpardo\u201d era uma desonra. Por\u00e9m, devido \u00e0 grande quantidade de membros da \u201cra\u00e7a cruzada\u201d, o \u201cperigo\u201d era um \u201cbranco puro\u201d se \u201ccasar com bode\u201d, ou seja, como se dizia na \u00e9poca, com aqueles que \u201chaviam berrado no ventre materno\u201d. Todo esse leque de rejei\u00e7\u00f5es levou a que houvesse uma grande conscientiza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as sociais, econ\u00f4micas e raciais, assim como se tornaram um poderoso fermento para o crescimento da viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es sociais maranhenses. Desta maneira, para certos membros das camadas dominantes da prov\u00edncia, os movimentos que contestavam aquela r\u00edgida sociedade escravista eram compostos por pessoas social e racialmente ignorantes. Com isso, as revoltas e insurrei\u00e7\u00f5es aprofundaram ainda mais os preconceitos e as barreiras sociais e raciais existentes. Ser pobre e \u201cde cor\u201d eram marcas que rebaixavam a condi\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. Mas, logo os movimentos dos balaios e dos escravos tomaram propor\u00e7\u00f5es gigantescas e receberam milhares de ades\u00f5es.<\/p>\n<p>Na 1a metade do s\u00e9culo XIX, alguns elementos serviram para alimentar o caldo de cultura que indicava profundas mudan\u00e7as. A independ\u00eancia pol\u00edtica, ocorrida em 1822, gerou profundas divis\u00f5es e rivalidades no<\/p>\n<p>seio da elite dominante maranhense. Estava em jogo interesses de grupos e a dire\u00e7\u00e3o dos mesmos diante das novas alian\u00e7as e projetos que o pa\u00eds independente tomaria. Dentro desta \u00f3tica, outro fato significativo foi a substitui\u00e7\u00e3o do algod\u00e3o pelo a\u00e7\u00facar na economia do Maranh\u00e3o. No contexto internacional, o s\u00e9culo XIX assistiu \u00e0 definitiva instala\u00e7\u00e3o dos interesses ingleses na economia brasileira e a liquida\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio colonial portugu\u00eas sobre o pa\u00eds. Naquele contexto, tamb\u00e9m, ocorreu o avan\u00e7o na desestrutura\u00e7\u00e3o da economia maranhense (fato que ocorria desde o s\u00e9culo XVIII), tanto na agricultura como na pecu\u00e1ria. O alargamento da crise sobre as estruturas produtivas agravou o n\u00edvel de vida das camadas populares (aumentou a mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o devido \u00e0 falta de recursos e de terras para a produ\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia e de v\u00edveres e, ainda, cresceu o n\u00famero de desocupados e de indigentes no sert\u00e3o da prov\u00edncia). Em contrapartida, o escravo era cada vez mais utilizado na maioria das atividades produtivas. Este fato criou tens\u00f5es constantes entre as camadas pobres e livres e os escravos negros.<\/p>\n<p>Toda aquela ebuli\u00e7\u00e3o de acontecimentos possibilitou a germina\u00e7\u00e3o de certa semente de conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Esta apontava para a necessidade de expuls\u00e3o dos portugueses (e outros estrangeiros) e a defesa intransigente da nacionalidade. Outra caracter\u00edstica se deu na assimila\u00e7\u00e3o de ideais de liberdade, particularmente entre os escravos. \u00c9 necess\u00e1rio ressaltar que aqueles acontecimentos no Maranh\u00e3o ocorriam em pleno per\u00edodo regencial (1831-1840), contexto em que ocorreu a Abdica\u00e7\u00e3o de D. Pedro I e a Maioridade de D. Pedro II, com a conseq\u00fcente crise do poder nacional em constitui\u00e7\u00e3o e as suas numerosas e sangrentas revoltas, insurrei\u00e7\u00f5es e revolu\u00e7\u00f5es nas demais prov\u00edncias. O debate pol\u00edtico tornou-se intenso. A imprensa impulsionava a ebuli\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias liberais e nacionalistas entre todas as camadas sociais, especialmente, entre os populares. O \u00f3dio aos portugueses era comum a muitas revoltas.<\/p>\n<p>Desta maneira, a Balaiada como movimento social, desde o in\u00edcio n\u00e3o conseguiu superar a for\u00e7a da ideologia racista daquela sociedade escravista e, nem o seu fundamento, o trabalho escravo. Consequentemente, quando manifestou um \u201cFora feitores e escravos\u201d, tinha uma rela\u00e7\u00e3o maior com as possibilidades abertas para a ascens\u00e3o social da maioria dos balaios, do que qualquer tipo de solidariedade com os negros escravos ou de nega\u00e7\u00e3o do trabalho escravo. E, por mais que as condi\u00e7\u00f5es sociais e de vida dos pobres, caboclos, mesti\u00e7os e \u00edndios se assemelhassem \u00e0quelas vividas pelo negro escravo ou alforriado, os l\u00edderes rebeldes balaios estiveram a maior parte do tempo mais pr\u00f3ximos dos liberais maranhenses pois suas reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o chegaram a ultrapassar promessas de \u201cfidelidade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e0 religi\u00e3o cat\u00f3lica e ao imperador, voltando-se contra a influ\u00eancia dos portugueses e os privil\u00e9gios sociais que dificultavam a ascens\u00e3o de amplos setores da sociedade maranhense\u201d (Santos, 1983: 90). Quando falava em igualdade, seria uma conquista dirigida aos \u201chomens de cor\u201d, para que os mesti\u00e7os, cabras e caboclos, tivessem os mesmos direitos que os brancos. Eram, ent\u00e3o, limites que exclu\u00edam os negros, assim como ocorria com a ideologia dominante daquela sociedade escravista. Somente quando os movimentos dos balaios e dos escravos perderam a for\u00e7a inicial (por volta de 1840) que houve um princ\u00edpio de aproxima\u00e7\u00e3o entre eles. Foi quando a luta assumiu o car\u00e1ter de uma revolta dos \u201chomens de cor contra os brancos\u201d, momento em que se organizou uma implac\u00e1vel repress\u00e3o contra os \u00faltimos e persistentes revoltosos. O l\u00edder dos balaios, Raimundo Gomes, ap\u00f3s ser derrotado, juntou-se (em 1839) aos quilombolas liderados por Cosme Bento das Chagas. Posteriormente, em 1841, juntou-se a um grupo de \u00edndios, at\u00e9 render-se com mais de 700 rebeldes \u00e0s tropas do futuro Duque de Caxias. A fome, a doen\u00e7a e a repress\u00e3o venceram os cerca de 11 000 mil balaios. Entre eles, havia grande n\u00famero de camponeses pobres, \u00edndios, mesti\u00e7os, brancos e negros.<\/p>\n<p>O grande medo das elites era a ocorr\u00eancia de uma rebeli\u00e3o negra. Naquela etapa da insurrei\u00e7\u00e3o \u201cos negros aprenderam com os balaios as t\u00e1ticas de guerrilhas, quando a sua luta extrapolou a resist\u00eancia dos quilombos para os confrontos em campo aberto com as tropas da legalidade. Como os balaios, tamb\u00e9m os negros incendiavam as casas e os pai\u00f3is para que o inimigo n\u00e3o encontrasse recursos de abastecimento\u201d. Foi, ent\u00e3o, \u201centre 1838 e 1841 \u2013 com a Balaiada \u2013 que os movimentos de escravos no Maranh\u00e3o adquiriram novas performances, ultrapassando os n\u00edveis de resist\u00eancia tradicionalmente utilizados (fugas, assassinatos, quilombos) e caracterizando-se pela resist\u00eancia ativa com grandes mobiliza\u00e7\u00f5es e razo\u00e1vel grau de organiza\u00e7\u00e3o\u201d (Santos, 1983: 91 e 96).<\/p>\n<p>Com o alastramento da revolta dos balaios e dos movimentos de fugas, quilombos e insurrei\u00e7\u00e3o de escravos foi todo o sistema de poder, produ\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o escravista maranhense que esteve amea\u00e7ado. Em 1839, conservadores e liberais superaram as suas diverg\u00eancias e passaram a unificar a luta contra aqueles que amea\u00e7avam a continuidade do sistema. Imediatamente, unificou-se o uso da for\u00e7a pelo governo. Com a ajuda de propriet\u00e1rios e comerciante organizou-se batalh\u00f5es provis\u00f3rios em diversas localidades. Tamb\u00e9m, em 1840, Lu\u00eds Alves de Lima, o futuro Duque de Caxias, assumiu a presid\u00eancia da prov\u00edncia do Maranh\u00e3o. \u00c0 frente de cerca de 8 000 mil homens, estavam dadas as condi\u00e7\u00f5es para a grande repress\u00e3o que reuniu, ainda, lavradores, agregados, feitores e as poderosas fam\u00edlias locais contra a Balaiada e as diversas formas de resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o. Por volta de 1840, o movimento dos balaios come\u00e7ou a se desintegrar, devido \u00e0s primeiras trai\u00e7\u00f5es e \u00e0 for\u00e7a da repress\u00e3o adotada pelo governo. Para as classes dominantes da \u00e9poca, a cor e a pobreza eram t\u00e3o pecaminosas quanto aquelas rebeldias. Para alguns, a cor era um defeito maior do que a pobreza.<\/p>\n<p>Mas, diante de tudo isso, o grande foco da revolta escravista foi na regi\u00e3o de Itapicuru, que chegou a concentrar cerca de 20 mil negros e amea\u00e7ou o \u201csossego p\u00fablico\u201d do Maranh\u00e3o. Daquela regi\u00e3o o negro Cosme, ao fugir da cadeia de S\u00e3o Lu\u00eds, iniciou uma grande insurrei\u00e7\u00e3o de negros em v\u00e1rias fazendas da redondeza. O negro Cosme distribu\u00eda cartas de alforrias a seus seguidores e concedeu a si pr\u00f3prio o t\u00edtulo de \u201cTutor e Imperador da Liberdade\u201d. Cosme sabia ler e escrever, tinha cerca de 40 anos e chamava a sua luta de \u201cGuerra da Lei da Liberdade Republicana\u201d. Estendia a Irmandade do Ros\u00e1rio a todos aqueles que apoiavam a sua luta. Como l\u00edder espiritual, era onde o negro Cosme concentrava todas as suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Cosme Bento das Chagas, como chefe negro, expressou o seu grau de consci\u00eancia pol\u00edtica e o valor que dava \u00e0 liberdade, quando procurou estabelecer uma escola de ler e de escrever no quilombo de Lagoa-Amarela, na comarca do Brejo. Chegou a liderar cerca de 3 000 mil negros. Defendia a autoridade do Imperador Pedro II, todavia foi um negro forro e resistente ativo naquela sociedade escravista. Era natural de Sobral, no Cear\u00e1, n\u00e3o tinha domic\u00edlio certo e vivia de comandar a tropa de negros com o objetivo de acabar com a escravid\u00e3o. Segundo o futuro Duque de Caxias, o \u201cTutor e Imperador da Liberdade\u201d foi quem mais assustou os fazendeiros locais. Do grande quilombo situado na fazenda Lagoa-Amarela, pr\u00f3ximo ao rio Preto, mantinha piquetes avan\u00e7ados e dirigia grupos de quilombolas que roubavam e incentivavam a insurrei\u00e7\u00e3o nas fazendas da regi\u00e3o. Na verdade, em toda a prov\u00edncia do Maranh\u00e3o eram milhares os negros quilombolas, tornando a insurrei\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel e generalizada. O negro Cosme, ent\u00e3o, n\u00e3o tinha o controle sobre todos os negros rebelados.<\/p>\n<p>A partir de 1840, as persegui\u00e7\u00f5es se tornaram mais constantes e sangrentas para a captura de Cosme e seus homens. No final, cerca de 200 negros resistiram bravamente \u00e0s tropas do futuro Duque de Caxias. Um grande n\u00famero de quilombolas foi aprisionado (entre eles muitas crian\u00e7as), e devolvidos a seus antigos senhores. O negro Cosme, ferido, ainda tentou refugiar-se entre os \u00edndios. Mas, foi capturado ap\u00f3s uma her\u00f3ica resist\u00eancia de todos aqueles negros. Muitos morreram diante das tropas legalistas. O processo de julgamento de Cosme Bento das Chagas ocorreu de mar\u00e7o de 1841 at\u00e9 abril de 1842. Em 5 de abril daquele ano, foi condenado \u00e0 pena de morte. Foi enforcado na vila de Itapicuru-Mirim, talvez, entre os dias 19 e 25 de setembro de 1842. Assim como os b\u00fazios de 1798 em Salvador, e tantos outros, o negro Cosme foi justi\u00e7ado para servir de exemplo. Mas, outros escravos e negros n\u00e3o aceitaram aquele \u201cexemplo\u201d, pois os cativos continuaram resistindo e formando quilombos. E, com isso, nos transmitiram verdadeiros exemplos. Hist\u00f3rias como essas nos ensinam o poder da organiza\u00e7\u00e3o e a necessidade de termos a consci\u00eancia de que a luta continua. Afinal, os afro-brasileiros seguem lutando contra a ideologia, o racismo e a d\u00edvida hist\u00f3rica que a sociedade brasileira imp\u00f5e ao povo negro, mesmo ap\u00f3s a supera\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesquisa: Jose Lucas (Folha do Piraju\u00e7ara)<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\">https:\/\/www.geledes.org.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na prov\u00edncia do Maranh\u00e3o, h\u00e1 182 anos, ocorreu uma c\u00e9lebre revolta de escravos. A insurrei\u00e7\u00e3o de milhares de negros (1838-1840)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6885,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-6884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6884"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6884"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6886,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6884\/revisions\/6886"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}