{"id":7076,"date":"2023-09-05T22:00:39","date_gmt":"2023-09-06T01:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=7076"},"modified":"2023-09-05T17:03:04","modified_gmt":"2023-09-05T20:03:04","slug":"quem-foi-quintino-de-lacerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/09\/05\/quem-foi-quintino-de-lacerda\/","title":{"rendered":"Quem foi Quintino de Lacerda?"},"content":{"rendered":"<p>Quintino de Lacerda nasceu escravo em 1855, na cidade serrana de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Itabaiana_(Sergipe)\">Itabaiana<\/a>, em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sergipe\">Sergipe<\/a>. Vendido como escravo aos 19 anos por seu senhor, Major Antonio dos Santos Leite, para\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Santos\">Santos<\/a>\u00a0durante o crescimento do com\u00e9rcio interno de escravos entre as prov\u00edncias do pa\u00eds ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio atl\u00e2ntico, foi escravo de ganho dom\u00e9stico &#8211; cozinheiro &#8211; de Joaquim e Ant\u00f4nio Lacerda Franco.\u00a0Inteligente, ativo, d\u00f3cil e simp\u00e1tico, afei\u00e7oou-se \u00e0 fam\u00edlia de seu novo senhor, de quem adotou o sobrenome e com suas filhas estudou os rudimentos da leitura e da escrita, conseguindo, ap\u00f3s 8 anos de servi\u00e7os como escravo, a carta de alforria.<\/p>\n<p>Sua influ\u00eancia e poder de sedu\u00e7\u00e3o eram t\u00e3o grandes, seu nome t\u00e3o querido e respeitado, que os abolicionistas da cidade, n\u00e3o podendo mais conter em suas casas o crescente n\u00famero de negros fugidos das fazendas, dirigiram-se a sua figura, por interm\u00e9dio de Lacerda Franco, para que Quintino organizasse e assumisse o comando do reduto estabelecido nas matas do Jabaquara.\u00a0Quintino de Lacerda tornou-se, nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX no Brasil, uma figura central nos movimentos sociais e debates pol\u00edticos que surgiam nesses agitados anos.<\/p>\n<p>&#8220;Assim, durante os dez anos posteriores \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea, a popula\u00e7\u00e3o de cor santista conclamara Quintino de Lacerda como figura central para o sucesso de seus anseios.&#8221;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">L\u00edder do Quilombo do Jabaquara<\/h2>\n<p>Chefe do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Quilombo_do_Jabaquara&amp;action=edit&amp;redlink=1\">Quilombo do Jabaquara<\/a>, garantiu abrigo a escravos fugitivos de toda a regi\u00e3o do planalto, que em Santos buscavam defesa. Assumiu a fun\u00e7\u00e3o de comandar arriscadas fugas e chefiar os escravos, atingindo o auge de suas a\u00e7\u00f5es abolicionistas em 1888.\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B4nio_da_Silva_Jardim\">Ant\u00f4nio da Silva Jardim<\/a>, famoso republicano radical, chegou a atribuir o sucesso do Quilombo \u00e0 Quintino de Lacerda em seu livro\u00a0<em>Mem\u00f3rias e viagens (1891)<\/em>\u00a0&#8220;Era a\u00ed que se achava o c\u00e9lebre quilombo do Jabaquara, protegido pela popula\u00e7\u00e3o, ao qual muitos comerciantes forneciam mantimentos, a pedido do chefe negro Quintino de Lacerda&#8221;.<\/p>\n<p>O Quilombo do Jabaquara, na descri\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B4nio_da_Silva_Jardim\">Antonio da Silva Jardim<\/a>, era verdadeiramente intranspon\u00edvel, defendido pelas encosta do morro do Jabaquara e com um \u00fanico caminho de acesso permanentemente guardados por sentinelas de Quintino. Os 2023 cativos que habitavam o quilombo do Jabaquara vieram as ruas dia 13 de maio de 1888, quando o decreto que extinguia o cativeiro chegou a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Santos\">Santos<\/a>, cidade que considerava, desde 1886, abolida a escravid\u00e3o de seu territ\u00f3rio.\u00a0Dez dias de festas populares, passeatas e lumin\u00e1rias sucederam aquele 13 de maio. Quintino recebeu homenagens por parte das comiss\u00f5es organizadoras dos festejos e foi considerado \u00eddolo do povo santista.<\/p>\n<p>Quintino de Lacerda era um personagem interessante e contradit\u00f3rio. Foi c\u00e9lebre em Santos, ocupando o notici\u00e1rio dos jornais e recebendo elogios das autoridades. Ao mesmo tempo em que defendia os direitos dos negros libertos, principalmente o de permanecer nas terras do quilombo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, Quintino era cooptado pelas elites locais, que se utilizavam de seus servi\u00e7os e aproveitavam de sua lideran\u00e7a sobre os negros, assim como muitos negros revertiam em proveito pr\u00f3prio a influ\u00eancia e moral que o abolicionista dispunha.<\/p>\n<p>Apesar de sua conduta controversa, que misturava aparente submiss\u00e3o a brancos com atitudes de prote\u00e7\u00e3o aos escravos que chegavam a Santos, o ex-escravo sergipano tornou-se respeitado entre negros e brancos pela sua valentia, fosse nos conflitos com autoridades que perseguiam cativos fugitivos em plena serra do Mar, fosse em brigas na rua para defender homens da elite a ele associados<span style=\"font-size: 13.3333px;\">.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Exatamente por viver as duas experi\u00eancias, de escravo e liberto, e os dois momentos, o anterior e o posterior a esse marco cronol\u00f3gico, sambando de um lado para o outro entre imigrantes, homens poderosos, escravos e ex-escravos, \u00e9 que Quintino de Lacerda proporciona a oportunidade de discutir temas ligados \u00e0s possibilidades de cidadania para a popula\u00e7\u00e3o oriunda do cativeiro, como os embates em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o do Jabaquara e a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos ex-quilombolas do Jabaquara na cidade de Santos ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Aboli\u00e7\u00e3o e da Rep\u00fablica.&#8221;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Major do Ex\u00e9rcito Brasileiro<\/h2>\n<p>Com a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, Quintino manteve-se incontest\u00e1vel como lideran\u00e7a na zona portu\u00e1ria de Santos, muitas vezes ao lado da ordem. Logo ap\u00f3s a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lei_%C3%81urea\">Lei \u00c1urea<\/a>, organizou um batalh\u00e3o, imbu\u00eddo do cargo de capit\u00e3o, com o objetivo de derrubar o trono brasileiro. Com a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Proclama%C3%A7%C3%A3o_da_Rep%C3%BAblica_do_Brasil\">Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/a>, pouco depois. \u00e9 promovido a Major honor\u00e1rio, patente distribu\u00edda ao mais dignos, capazes.\u00a0Atuou ativamente na greve de 1891, organizando e chefiando as chamadas \u201cturmas de homens de cor\u201d contra os trabalhadores portu\u00e1rios imigrantes grevistas.\u00a0Em 1893 Quintino foi condecorado major honor\u00e1rio do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ex%C3%A9rcito_Brasileiro\">ex\u00e9rcito brasileiro<\/a>, por sua atua\u00e7\u00e3o durante a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolta_da_Armada\">Revolta da Armada<\/a>, assumindo o controle do porto de Santos, com o intuito de defender o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, o\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Floriano_Peixoto\">Marechal Floriano Peixoto<\/a>. Quintino teria sido um dos primeiros a oferecer seus servi\u00e7os &#8220;\u00e0 causa da legalidade, pondo ao dispor do governo do Marechal Floriano toda a sua dedica\u00e7\u00e3o e a de muitos amigos seus&#8221;. durante a revolta.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e3o logo foi proclamada a Rep\u00fablica, houve manifestos de pol\u00edticos santistas a favor do novo regime e\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Eug%C3%AAnio_Wansuit&amp;action=edit&amp;redlink=1\">Eug\u00eanio Wansuit<\/a>, junto com o chefe do Jabaquara, Quintino de Lacerda, convocaram os \u201chomens de cor\u201d para uma reuni\u00e3o no Teatro Guarani, que ocorreu cheia de discursos acalorados e vivas \u201cao Ex\u00e9rcito, \u00e0 Armada, ao General Deodoro, aos Governos Provis\u00f3rios e \u00e0 Rep\u00fablica\u201d. Esta situa\u00e7\u00e3o ajuda a entender porque em 1893, quando estourou a Revolta da Armada e Santos se tornou um dos alvos dos revoltosos, pela posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, Quintino de Lacerda organizou o seu Batalh\u00e3o Silva Jardim, composto por homens brancos e negros, para tomar conta da ponte sobre o Rio Casqueiro, em Cubat\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Vida pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Durante o mesmo per\u00edodo, lan\u00e7a-se \u00e0 luta pol\u00edtica, incorporando, pela primeira vez, os negros ao processo pol\u00edtico na cidade. Amigo do abolicionista\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B4nio_da_Silva_Jardim\">Antonio da Silva Jardim<\/a>\u00a0e do governador Bernardino de Campos, Quintino foi a ponte entre a elite branca e os negros libertos em Santos. Foi eleito vereador da C\u00e2mara Municipal em 1895, mas impedido de tomar posse pelos outros vereadores, que se negavam a compartilhar o poder com um negro. Sua elei\u00e7\u00e3o faz eclodir uma grande crise pol\u00edtica fomentada pelos setores racistas.\u00a0A batalha judicial que se segue chega aos tribunais paulistanos, e termina com a vit\u00f3ria de Quintino. Prevendo o desfecho em favor do l\u00edder negro, o presidente da C\u00e2mara, Manoel Maria Tourinho, renunciou ao mandato, seguido pelo vereador Alberto Veiga. O novo presidente, Jos\u00e9 Andr\u00e9 do Sacramento Macuco, foi obrigado a empossar Quintino.<\/p>\n<p>&#8220;Suas a\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 1890 demonstram como a campanha abolicionista e o capital simb\u00f3lico adquirido por aqueles indiv\u00edduos que lutaram em prol da causa permaneceram sendo acionados nos jogos pol\u00edticos que vieram a ser desenhados durante o p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Morte<\/h2>\n<p>Morreu em 10 de agosto de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1898\">1898<\/a>. Seu enterro foi acompanhado por um grande n\u00famero de pessoas, um testemunho do reconhecimento de sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica; seus restos mortais est\u00e3o sepultados na Campa n.\u00ba 42, localizada no Jazigo da I.S.B. Irmandade S\u00e3o Benedito, no cemit\u00e9rio municipal do Paquet\u00e1, localizado na cidade de Santos\/SP.<\/p>\n<p>Com sua morte, Quintino de Lacerda deixou \u00f3rf\u00e3o tr\u00eas filhos, Alzira, com 13 anos, Arcelino, com 12 anos, e Sabina, com 7 anos. Quintino teve, ao todo, quatro filhos. Por\u00e9m seu filho Janu\u00e1rio faleceu com 8 anos antes da morte de Quintino. Sua esposa, Maria Isidora de Sousa, havia falecido exatamente um ano antes, no dia 20 de agosto de 1897.\u00a0Homem bem relacionado, morreu rico, deixando extensa lista de bens, m\u00f3veis e im\u00f3veis para seus herdeiros, incluindo um pequeno tesouro amealhado em j\u00f3ias de ouro e moedas de prata.<\/p>\n<p>Seu nome tamb\u00e9m foi lembrado em sua terra natal, onde denominaram uma art\u00e9ria p\u00fablica com seu nome no centro da cidade (Rua Quintino de Lacerda) e reconheceram-no pelo seu legislativo municipal, como Her\u00f3i Negro de Itabaiana, considerando o 8 de junho como o\u00a0<em>Dia Municipal de Luta da Consci\u00eancia Negra<\/em>\u00a0em sua homenagem gravada em 20 de setembro de 2001.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Medalha Quintino de Lacerda<\/h2>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Santos n\u00ba99\/2000, de 8 de junho de 2000 decreta a cria\u00e7\u00e3o da medalha Quintino de Lacerda, a ser concedida anualmente a tr\u00eas pessoas f\u00edsicas e tr\u00eas pessoas jur\u00eddicas que tenham merecido a distin\u00e7\u00e3o, pela relev\u00e2ncia do seu trabalho em defesa da integra\u00e7\u00e3o racial, solidariedade e fraternidade, em quaisquer \u00e1rea de atividade. A medalha \u00e9 entregue desde 2000, no dia 13 de maio, na sala Princesa Isabel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*pesquisa: Jose Lucas (Folha do Piraju\u00e7ara)<\/p>\n<p>*fonte: https:\/\/pt.wikipedia.org\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quintino de Lacerda nasceu escravo em 1855, na cidade serrana de\u00a0Itabaiana, em\u00a0Sergipe. 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