{"id":7158,"date":"2023-09-16T21:52:18","date_gmt":"2023-09-17T00:52:18","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=7158"},"modified":"2023-09-16T21:52:18","modified_gmt":"2023-09-17T00:52:18","slug":"anaja-caetano-a-escritora-negra-sem-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/09\/16\/anaja-caetano-a-escritora-negra-sem-passado\/","title":{"rendered":"Anaj\u00e1 Caetano: a escritora negra sem passado"},"content":{"rendered":"<p>Anaj\u00e1 Caetano nasceu em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso, sul de Minas Gerais, regi\u00e3o cafeeira pr\u00f3xima \u00e0 divisa com S\u00e3o Paulo. Sua data de nascimento, assim como fotos e demais dados biogr\u00e1ficos, permanecem at\u00e9 hoje envoltos em mist\u00e9rio. As poucas informa\u00e7\u00f5es impressas a que<strong> se<\/strong> tem acesso constam dos paratextos presentes no \u00fanico romance de sua autoria encontrado at\u00e9 o momento:\u00a0<em>Negra Efig\u00eania, paix\u00e3o do senhor branco<\/em>, publicado em S\u00e3o Paulo, em 1966, e hoje fora de circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em nota introdut\u00f3ria, a autora se declara \u201cromancista negra\u201d, oriunda da na\u00e7\u00e3o angolana Qui\u00f4co, etnia reconhecida pela for\u00e7a de sua arte secular, com acervos importantes nos museus de Neuchatel, na Su\u00ed\u00e7a e Dundo, em Angola. J\u00e1 de in\u00edcio, portanto, a fala autoral explicita seus v\u00ednculos com a hist\u00f3ria dos antepassados africanos, precursores de in\u00fameros artistas, tanto l\u00e1, quanto nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<em>Sil\u00eancios prEscritos, estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006)<\/em>, a pesquisadora Fernanda Miranda afirma ser Anaj\u00e1 Caetano a &#8220;primeira romancista a auto enunciar sua identidade negra de forma declarada no discurso, isto \u00e9, com um sujeito que se afirma negro em primeira pessoa. [&#8230;] E afirma saber de onde veio, condi\u00e7\u00e3o rara na experi\u00eancia negra na di\u00e1spora.&#8221; (MIRANDA, 2019, p. 193).<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora Eunice Arruda, que assina a orelha do livro, Anaj\u00e1 Caetano teve como mentor e \u201cpai de cria\u00e7\u00e3o\u201d Jos\u00e9 de Souza Soares \u2013 intelectual empenhado no estudo da forma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica da regi\u00e3o desde os tempos coloniais, autor de<em>\u00a0S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso e sua hist\u00f3ria<\/em>\u00a0\u2013 cujos escritos teriam auxiliado a romancista no adensamento do lastro de realidade presente na narrativa protagonizada pela negra Efig\u00eania. Com efeito, o romance se empenha em reconstituir as rela\u00e7\u00f5es entre senhores e escravizados, no contexto do paternalismo senhorial ent\u00e3o vigente.<\/p>\n<p>Por sua vez, o poeta e pesquisador Eduardo de Oliveira, no pref\u00e1cio do romance, classifica a autora como \u201cautodidata\u201d que \u201cenvereda pelos \u00ednvios caminhos das \u2018belas letras\u2019 mais por voca\u00e7\u00e3o que mesmo por for\u00e7a de eventual diletantismo\u201d, e ressalta as qualidades do texto, para ele \u201cuma genial e bem sucedida tentativa de reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.\u201d (1966, p. 11).<\/p>\n<p>De fato, al\u00e9m de ter como n\u00facleo tem\u00e1tico a escravid\u00e3o, a narrativa se empenha em resgatar aspectos relevantes das culturas negras diasp\u00f3ricas e real\u00e7ar os elos destas com o Brasil e os brasileiros.<\/p>\n<p>A historiadora Maria L\u00facia de Barros Mott assim apresenta o romance:<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria remonta ao final do s\u00e9culo XVIII, e relata a ocupa\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o agr\u00edcola do Sul de Minas at\u00e9 o 13 de Maio. Efig\u00eania, escrava de uma senhora cruel, foi raptada para ser esposa de um propriet\u00e1rio branco que, anos antes da Aboli\u00e7\u00e3o, j\u00e1 havia transformado os escravos em colonos.<br \/>\nPara Anaj\u00e1, a escravid\u00e3o n\u00e3o destruiu a cultura dos escravos, nem mesmo suas lideran\u00e7as nativas. Cultura e lideran\u00e7a reconhecidas pelos brancos. A crueldade do sistema centraliza-se quase exclusivamente nas sinh\u00e1s. Eram elas que castigavam duramente os escravos e, sobretudo, as escravas, sendo por isso desprezadas por seus parceiros, como tamb\u00e9m por serem consideradas sexualmente devassas. Os homens brancos, a Igreja e mesmo os escravos n\u00e3o condenavam a uni\u00e3o entre senhor-escrava. (MOTT, 1989).<\/p>\n<p>De fato, o livro destaca a perversidade da sinh\u00e1, como se pode constatar nos cap\u00edtulos 20 e 21, em anexo. Nestas e em outras passagens, a escravid\u00e3o \u00e9 apresentada sem retoques, com o ser humano reduzido a mera for\u00e7a de trabalho e submetido aos supl\u00edcios do chicote e do tronco.<\/p>\n<p>Por outro lado, a paix\u00e3o encenada entre o bom senhor e a escrava salva da morte para ser sua mulher \u00e9 motivo de reparos do cr\u00edtico ingl\u00eas David Brookshaw. Em\u00a0<em>Ra\u00e7a e cor na literatura brasileira<\/em>\u00a0(1993), ele reprova a idealiza\u00e7\u00e3o de um casamento harmonioso entre personagens situados em territ\u00f3rios sociais antag\u00f4nicos, e destaca a \u201cfalta de tens\u00e3o\u201d da\u00ed decorrente, que transborda para os campos religioso e cultural.<\/p>\n<p>J\u00e1 Eduardo de Oliveira prefere destacar a humanidade que permeia os personagens tanto brancos quanto negros, com suas virtudes e defeitos. Assim, o romance constr\u00f3i um quadro hist\u00f3rico o mais amplo poss\u00edvel, em que t\u00eam lugar seres como Ant\u00f4nio Bento e o padre Thom\u00e1s, que estabelecem o necess\u00e1rio contraponto \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o da brutalidade inerente ao sistema escravocrata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisa : Jose Lucas (Folha do Piraju\u00e7ara)<\/p>\n<p>Fonte : <a href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\">www.letras.ufmg.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anaj\u00e1 Caetano nasceu em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso, sul de Minas Gerais, regi\u00e3o cafeeira pr\u00f3xima \u00e0 divisa com S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7159,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-7158","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7158"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7158"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7158\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7160,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7158\/revisions\/7160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}