{"id":7197,"date":"2023-09-22T21:26:30","date_gmt":"2023-09-23T00:26:30","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=7197"},"modified":"2023-09-22T21:26:30","modified_gmt":"2023-09-23T00:26:30","slug":"caso-de-madalena-escrava-desde-os-oito-anos-expoe-legado-vivo-da-escravidao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/09\/22\/caso-de-madalena-escrava-desde-os-oito-anos-expoe-legado-vivo-da-escravidao-no-brasil\/","title":{"rendered":"Caso de Madalena, escrava desde os oito anos, exp\u00f5e legado vivo da escravid\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Exemplo extremo do pacto social racista que perdura no pa\u00eds no s\u00e9culo XXI, Madalena Gordiano foi empregada dom\u00e9stica de uma fam\u00edlia abastada durante quatro d\u00e9cadas sem remunera\u00e7\u00e3o ou f\u00e9rias<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Madalena Gordiano, que trabalhou quatro d\u00e9cadas sem sal\u00e1rio nem folgas, durante uma entrevista ao programa \u2018Fant\u00e1stico\u2019 em dezembro, depois de ter sido resgatada.<strong>GLOBO<\/strong><\/p>\n<p>Madalena Gordiano tinha oito anos quando bateu em uma porta para pedir comida. Algu\u00e9m convidou para entrar aquela menina negra que tinha uma irm\u00e3 g\u00eamea e outros sete irm\u00e3os. A dona da casa, uma professora branca, prometeu adot\u00e1-la. Sua m\u00e3e aceitou. Mas ela nunca foi adotada nem voltou \u00e0 escola. Cozinhar, lavar, limpar banheiros, tirar o p\u00f3, arrumar a casa da fam\u00edlia de Maria das Gra\u00e7as Milagres Rigueira se tornou sua rotina di\u00e1ria durante as quatro d\u00e9cadas seguintes. Esta v\u00edtima da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/racismo\/\">explora\u00e7\u00e3o racista<\/a>\u00a0era uma escrava do s\u00e9culo XXI na casa de uma fam\u00edlia abastada em um pr\u00e9dio de apartamentos em uma cidade de Minas Gerais. Nunca teve sal\u00e1rio, dias de folga ou f\u00e9rias, de acordo com os procuradores que investigam o caso. Quando Gordiano foi resgatada, em 27 de novembro, era uma mulher de 46 anos com cabelos muito curtos e grande dificuldade para se expressar.<\/p>\n<p>\u201cFui pedir p\u00e3o porque tinha fome, mas ela me disse que n\u00e3o me daria se eu n\u00e3o ficasse morando com ela\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fantastico\/noticia\/2020\/12\/20\/mulher-e-libertada-em-mg-apos-38-anos-vivendo-em-condicoes-analogas-a-escravidao.ghtml\">contou a v\u00edtima ao Fant\u00e1stico, que revelou o caso na v\u00e9spera do Natal<\/a>. O portal\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2021\/01\/03\/mpt-familia-manteve-mulher-escrava-e-usou-renda-dela-em-faculdade-e-imovel.htm\"><em>UOL<\/em>\u00a0descobriu outros detalhes perversos da hist\u00f3ria<\/a>.<\/p>\n<p>| EL PA\u00cdS<\/p>\n<p>O inferno desta empregada dom\u00e9stica comp\u00f5e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/19\/politica\/1574203693_074968.html\">um exemplo extremo do legado que mais de tr\u00eas s\u00e9culos de escravid\u00e3o deixaram no Brasil<\/a>. Principal destino do tr\u00e1fico negreiro, o pa\u00eds foi o \u00faltimo das Am\u00e9ricas a libertar, h\u00e1 132 anos, a m\u00e3o de obra trazida \u00e0 for\u00e7a da \u00c1frica. As \u00faltimas amas de leite brasileiras s\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o atr\u00e1s, mas o trabalho dom\u00e9stico ainda \u00e9 um of\u00edcio tradicional das mulheres negras.<\/p>\n<p>Essa fam\u00edlia respeit\u00e1vel na apar\u00eancia e com fama de tradicional n\u00e3o se aproveitou apenas do trabalho de Gordiano. Ela a transformou em uma fonte de renda. Os Milagres Rigueira a obrigaram a se casar com um parente idoso quando ela ainda estava na casa dos vinte anos. Ele tinha 78 anos e uma pens\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/26\/economia\/1553629605_589314.html\">Uma das melhores do Brasil, de militar<\/a>. Combatente na Segunda Guerra Mundial, recebia mais de 8.000 reais por m\u00eas, que a mulher com quem nunca conviveu herdou depois de sua morte. Oficialmente, esse dinheiro era dela, mas s\u00f3 recebia migalhas. Os patr\u00f5es ficavam com quase tudo.<\/p>\n<p>Segundo o\u00a0<em>UOL<\/em>, o dinheiro da empregada dom\u00e9stica sem sal\u00e1rio pagou o curso de medicina da filha da fam\u00edlia. Porque, em outro fato que parece ter sa\u00eddo diretamente das rela\u00e7\u00f5es entre senhores e escravos, Gordiano foi cedida a outro filho da fam\u00edlia, o professor de veterin\u00e1ria Dalton Milagres Rigueira. Durante a escravid\u00e3o era comum doar escravos aos filhos como presente de casamento ou inclu\u00ed-los no testamento com o resto dos bens. Muitas vezes eles eram a parte mais valiosa do patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Uma pesquisa jornal\u00edstica revelou que a irm\u00e3 g\u00eamea de Gordiano, Filomena, tamb\u00e9m vivia como empregada dom\u00e9stica com outro ramo da mesma fam\u00edlia, mas recebia um sal\u00e1rio. Ela deixou seus patr\u00f5es h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-7198 aligncenter\" src=\"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/caso-madalena-300x296.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"296\" \/><\/p>\n<p>O professor Dalton Milagres Rigueira e sua esposa, Valdirene Lopes, em uma foto de 2014 publicada no Facebook. Gordiano foi resgatada na casa do casal em Patos de Minas.<strong>RR SS<\/strong><\/p>\n<p>Depois da aboli\u00e7\u00e3o, o Estado brasileiro atraiu m\u00e3o-de-obra europeia com a concess\u00e3o de terras e outras vantagens com o objetivo declarado de branquear a sociedade. Enquanto isso, os escravos rec\u00e9m-libertados foram deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte sem qualquer ajuda p\u00fablica, enfatiza a historiadora. A desigualdade profundamente enraizada que persiste no Brasil de 2021 deriva desses s\u00e9culos brutais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/12\/politica\/1573581512_623918.html\">Negros e mesti\u00e7os s\u00e3o mais pobres que seus compatriotas brancos<\/a>: representam 56% da popula\u00e7\u00e3o, mas 75% dos assassinados, 64% dos desempregados, 60% dos presos, 15% dos ju\u00edzes e 1% dos atores premiados, de acordo com dados da ag\u00eancia Lupa. Suas fam\u00edlias ganham a metade do dinheiro que as brancas. E vivem menos.<\/p>\n<p>O caso da empregada dom\u00e9stica submetida ao trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o causou como\u00e7\u00e3o no Brasil, como aconteceu um m\u00eas antes com a morte de um cliente negro,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-11-20\/na-vespera-da-consciencia-negra-cliente-negro-e-espancado-ate-a-morte-em-loja-do-carrefour-em-porto-alegre.html\">Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado por dois seguran\u00e7as brancos \u00e0s portas de um supermercado Carrefour<\/a>.<\/p>\n<p>A empregada dom\u00e9stica escravizada foi localizada pelas autoridades na casa em que o professor de medicina veterin\u00e1ria vivia com a esposa em Patos de Minas, uma cidade de 100.000 habitantes em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Gordiano dormia em um pequeno quarto sem janela. N\u00e3o tinha telefone celular nem televis\u00e3o. Sua \u00fanica propriedade eram tr\u00eas camisetas. Seu \u00fanico al\u00edvio, ouvir a missa numa Igreja Cat\u00f3lica, onde aparentemente ningu\u00e9m suspeitava do inferno em que vivia. Foi resgatada gra\u00e7as \u00e0 den\u00fancia de um morador de seu pr\u00e9dio; ela era proibida de conversar com qualquer vizinho. Os moradores sabiam de suas dificuldades porque ela passava bilhetes por baixo das portas. Com letra tr\u00eamula, ela lhes pedia dinheiro para comprar sabonete e outros produtos de higiene pessoal. As autoridades suspeitaram da pens\u00e3o de vi\u00fava de Gordian anos atr\u00e1s, mas o assunto foi arquivado por falta de provas. Uma ocasi\u00e3o perdida de salv\u00e1-la.<\/p>\n<div class=\"a_c clearfix\" data-dtm-region=\"articulo_cuerpo\">\n<p class=\"\">O professor Dalton Milagres Rigueira, acusado com sua m\u00e3e, Maria das Gra\u00e7as, do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/17\/economia\/1481988865_894992.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\" data-mrf-link=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/17\/economia\/1481988865_894992.html\">crime de manter a v\u00edtima em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o<\/a>, explicou, ao ser interrogado, que a empregada dom\u00e9stica era como se fosse da fam\u00edlia. Ele acrescentou que \u201cn\u00e3o (a) incentivou a estudar porque n\u00e3o achava que isso a beneficiaria\u201d, de acordo com o Fant\u00e1stico. A universidade onde ele trabalha o suspendeu. O advogado da fam\u00edlia considera \u201cprematura e irrespons\u00e1vel a divulga\u00e7\u00e3o do caso pelos procuradores\u201d sem haver condena\u00e7\u00e3o e pede \u201cuma reflex\u00e3o cautelosa neste momento de confraterniza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d. Mais de 55.000 brasileiros que trabalhavam em condi\u00e7\u00f5es similares \u00e0 escravid\u00e3o foram resgatados nos \u00faltimos 25 anos, incluindo 14 empregadas dom\u00e9sticas no ano passado.<\/p>\n<p class=\"\">As<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/09\/politica\/1518183910_858999.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\" data-mrf-link=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/09\/politica\/1518183910_858999.html\">\u00a0empregadas dom\u00e9sticas<\/a>, em sua maioria negras, s\u00e3o uma figura central na sociedade brasileira. O reconhecimento legal de seus direitos trabalhistas foi uma grande conquista para milh\u00f5es de lavadeiras, passadeiras, bab\u00e1s, cozinheiras, jardineiros e motoristas particulares, mas provocou a indigna\u00e7\u00e3o de alguns patr\u00f5es. O classismo cotidiano \u00e9 vis\u00edvel e de vez em quando \u00e9 verbalizado. \u201cTodo mundo indo pra Disneyl\u00e2ndia. Empregada dom\u00e9stica indo pra Disneyl\u00e2ndia. Uma festa danada. Pera\u00ed. Vai passear ali em Foz de Igua\u00e7u, vai passear ali no Nordeste, cheio de praia bonita\u201d, disse o ministro da Economia,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/paulo-roberto-nunes-guedes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\" data-mrf-link=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/paulo-roberto-nunes-guedes\/\">Paulo Guedes<\/a>, em fevereiro de 2020, feliz com a alta do d\u00f3lar.<\/p>\n<p class=\"\">Uma das primeiras cartas que se conhecem no Brasil em que um escravo denuncia maus-tratos \u00e9 a que foi escrita por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/11\/19\/album\/1605801135_840772.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\" data-mrf-link=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/11\/19\/album\/1605801135_840772.html\">Esperan\u00e7a Garcia<\/a>, com uma caligrafia bem cuidada, em setembro de 1770 ao governador do Piau\u00ed. Alfabetizada ilegalmente pelos jesu\u00edtas, ela \u00e9 uma das personalidades hist\u00f3ricas recentemente resgatadas. Garcia protestava contra o maltrato f\u00edsico, al\u00e9m de implorar para que lhe fosse permitido se encontrar com o marido e batizar a filha. Acredita-se que ela tenha conseguido.<\/p>\n<p class=\"\">O cativeiro de Gordiano terminou gra\u00e7as a um vizinho an\u00f4nimo, o que lhe permitiu desfrutar do Natal em um abrigo para mulheres \u00e0 espera de poder se reunir, assim que a pandemia permitir, com alguns dos irm\u00e3os com os quais mendigava p\u00e3o h\u00e1 quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exemplo extremo do pacto social racista que perdura no pa\u00eds no s\u00e9culo XXI, Madalena Gordiano foi empregada dom\u00e9stica de uma<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7199,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-7197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7197"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7197"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7200,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7197\/revisions\/7200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}