{"id":7271,"date":"2023-10-09T17:19:57","date_gmt":"2023-10-09T20:19:57","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=7271"},"modified":"2023-10-09T17:19:57","modified_gmt":"2023-10-09T20:19:57","slug":"pobre-negro-gago-epiletico-machado-de-assis-teve-quase-tudo-contra-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/10\/09\/pobre-negro-gago-epiletico-machado-de-assis-teve-quase-tudo-contra-si\/","title":{"rendered":"Pobre, negro, gago, epil\u00e9tico: Machado de Assis teve quase tudo contra si"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Autor de romances marcados na hist\u00f3ria da literatura brasileira<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o era o triunfo acachapante que fascinava o escritor Joaquim Maria Machado de Assis. C\u00e9tico at\u00e9 a espinha, o autor de &#8220;Dom Casmurro&#8221; soube exercitar como poucos \u201ca arte das conveni\u00eancias e das meias palavras\u201d. Para muitos dos seus contempor\u00e2neos, Machado foi um homem estranho, singular, misterioso e perturbador. Sua figura retra\u00edda e tensa tinha alguma coisa de paradoxal, de desconcertante, de aparente contraste entre a pessoa e o artista.<\/p>\n<p>Como aquelas \u201cpessoas que parecem nascer errado, em clima diverso ou contr\u00e1rio ao de que precisam\u201d (a frase \u00e9 do pr\u00f3prio autor, um grande frasista), pessoas que lhes sendo poss\u00edvel sair de um clima adverso para outro que lhes seja mais adequado, parece que foram restitu\u00eddas a si pr\u00f3prias, ao seu pr\u00f3prio destino, Machado de Assis teve quase tudo contra si, em uma sociedade desigual e cruelmente injusta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Negro, pobre, gago, epil\u00e9tico, ainda assim, o escritor conseguiu se transformar no nome de maior peso na literatura brasileira, sendo o mais completo e complexo dos nossos artistas<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez o \u00fanico de nossa desgarrada literatura, a ter caracter\u00edsticas de verdadeiro cl\u00e1ssico universal. Ainda que seja praticamente imposs\u00edvel \u201cextra\u00ed-lo\u201d dos nossos antecedentes naturais. Filho dos tr\u00f3picos, Machado se sentia aborrecido pelo excesso e pela opul\u00eancia da nossa paisagem. Acabou por fixar o seu objeto de estudo na alma humana: m\u00e1, infiel, mentirosa, canalha, de uma canalhice atroz, express\u00e3o aut\u00eantica da natureza humana.<\/p>\n<p>Machado de Assis foi um homem que, segundo Rui Barbosa (que tamb\u00e9m tinha o dom da palavra), \u201cprosava como o Frei Luiz de Souza e cantava como Luiz de Cam\u00f5es\u201d. Certamente, nenhum outro escritor brasileiro foi t\u00e3o estudado e por \u00e2ngulos t\u00e3o diversos como esse carioca nascido no Morro do Livramento, na Gamboa, Zona Portu\u00e1ria da cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.<\/p>\n<p>Foi homem de muitos amigos, mas apenas no sentido da discreta amizade que lhes permitiu: sem dedica\u00e7\u00e3o ou intimidade maiores que a dos coment\u00e1rios \u201cn\u00e3o pol\u00eamicos\u201d. Jo\u00e3o Ribeiro, escritor e folclorista sergipano, membro da Academia Brasileira de Letras, acreditava que para Machado de Assis, \u201cos amigos n\u00e3o passavam de necessidades de di\u00e1logo, alguma coisa melhor do que falar sozinho\u201d.<\/p>\n<p>Vale registrar que Machado detestava os elogios (\u201cinsuport\u00e1veis\u201d) de homens \u201cderramados\u201d. Ainda assim, n\u00e3o s\u00e3o poucos os relatos de quem o conheceu pessoalmente enfatizando a sua \u201cquase inveross\u00edmil do\u00e7ura social\u201d, contrastando fortemente com um autor que, como poucos, soube manusear a pena da amargura e da dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A grande verdade \u00e9 que o &#8220;bruxo&#8221; foi um analista impiedoso, \u201cs\u00e1dico\u201d at\u00e9, que soube expor cruelmente um niilismo central nas coisas humanas, al\u00e9m de cultivar cuidadosamente, na vida, formas am\u00e1veis e requintadas de sociabilidade, como a indulg\u00eancia, a discri\u00e7\u00e3o e a cortesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Soube ser graciosamente pessimista e triste. O entusiasmo, ali\u00e1s, era para ele algo repugnante.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Machado de Assis fez bem quase tudo que empreendeu em literatura. Soube, como o italiano Dante Alighieri, atravessar o seu inferno, com um ceticismo c\u00e1ustico, \u201csuportando com paci\u00eancia, a dor do pr\u00f3ximo\u201d e, com estoicismo, a sua pr\u00f3pria dor. Mas, pagou um pre\u00e7o caro por sua \u201cserenidade\u201d impositiva.<\/p>\n<p>Pela enfermidade e pelo pensamento, penetrou no mundo subterr\u00e2neo da alma humana, atravessando as sombras frias, encarando o desespero mudo, a solid\u00e3o severa, a revolta sem ilus\u00e3o. Soube extrair das p\u00e1ginas de sua pr\u00f3pria vida e obra o sorriso melanc\u00f3lico, a tristeza pat\u00e9tica e a d\u00favida pusil\u00e2nime.<\/p>\n<p>Sem ra\u00edzes<\/p>\n<p>O poeta Jorge de Lima, autor de Inven\u00e7\u00e3o de Orfeu (1952) lembrou em um artigo que quando Machado de Assis morreu, Joaquim Nabuco, seu amigo, escreveu uma reprimenda a Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, famoso cr\u00edtico liter\u00e1rio da \u00e9poca:<\/p>\n<p>\u201cSeu artigo no\u00a0<em>Jornal do Commercio<\/em>\u00a0est\u00e1 belo, mas esta frase causou-me arrepio: mulato. Eu pelo menos s\u00f3 vi em Machado de Assis, o grego. N\u00e3o teria chamado Machado de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa s\u00edntese. Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir os artigos a p\u00e1ginas permanentes\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Nabuco, Machado era um cidad\u00e3o \u201cbranco\u201d em vida e \u201calv\u00edssimo\u201d depois de morto. Essa vis\u00e3o \u201cesquizofr\u00eanica\u201d, pode ter sido refor\u00e7ada pelo pr\u00f3prio autor das Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de forma conscientemente ou inconscientemente (mais dif\u00edcil de acreditar).<\/p>\n<p>Enquanto pode, Machado evitou toda e qualquer tentativa de devassa de sua hist\u00f3ria familiar, inclusive a humildade de sua filia\u00e7\u00e3o, que poderiam, talvez, ter lhe proporcionado as melhores p\u00e1ginas da sua literatura. N\u00e3o deixa de ser um inc\u00f4modo, ainda, que Machado tenha escrito t\u00e3o pouco sobre os negros.<\/p>\n<p>O seu passado, Machado de Assis matou no esquecimento. Pouco ou nada falou de Maria Leopoldina, sua m\u00e3e, nem de Francisco de Assis, seu pai, ou de sua irm\u00e3 (morta precocemente, aos 4 anos de idade). Afastou-se por completo de Maria In\u00eas da Silva, sua madrasta, que ap\u00f3s a morte de Francisco, terminou de cri\u00e1-lo. Machado se aristocratizou como um intelectual do seu tempo, um homem amargo, desencantado, fatigado, enjoado do seu s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Para Jorge de Lima, \u201co ambiente morno, a calmaria podre, o desinteresse pelo coletivo e pelo universal\u201d que foram o \u201cc\u00e2ncer\u201d do tempo de Machado de Assis, n\u00e3o permitiram que a obra deste \u201chomem excepcional\u201d (uma express\u00e3o de Jos\u00e9 Ver\u00edssimo) fosse ainda maior.<\/p>\n<p>Por sua vez, Jo\u00e3o Ribeiro constatou em Machado de Assis uma insensibilidade \u201cabsoluta\u201d pela dor humana, um ego\u00edsmo \u201csem limites\u201d, uma \u201cesquiva vivacidade\u201d nas suas \u201cinconst\u00e2ncias de esp\u00edrito\u201d. Todos os her\u00f3is machadianos possuem uma \u201cpequenez\u201d de alma, temperada com \u201cpequenas canalhices da desforra\u201d.<\/p>\n<p>Para o escritor Jos\u00e9 Lins do Rego, Machado foi um \u201cescritor sem ra\u00edzes\u201d e jamais serviria de modelo se dele quis\u00e9ssemos tirar um retrato do seu povo, mesmo que fosse da elite brasileira. Segundo Z\u00e9 Lins, Machado foi um homem de imagina\u00e7\u00e3o, mas de uma imagina\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica, sendo por isso, um homem \u00e0 parte em nossas letras: \u201cuma for\u00e7a viva e imaginativa, num pa\u00eds onde se procura descobrir imagina\u00e7\u00e3o na opul\u00eancia verbal de Jos\u00e9 de Alencar\u201d.<\/p>\n<p>O poeta carioca Ronald de Carvalho, ao contr\u00e1rio, considerava Machado um escritor sem transbordamentos de imagina\u00e7\u00e3o, sendo a sua riqueza \u201ctoda interior\u201d, muito mais intensa que extensa, de um \u201ccolorido s\u00f3brio e preciso\u201d. Para a escritora L\u00facia Miguel Pereira, a vida de Machado de Assis, toda processada sob o signo do esp\u00edrito modesto, digno e desinteressado, completa a sua obra, fazendo do autor, al\u00e9m de um valor intelectual, um precioso valor moral.<\/p>\n<p>Alfredo Pujol, cr\u00edtico liter\u00e1rio, um dos primeiros a se dedicar ao estudo da obra de Machado de Assis, o chamou de:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>alma recolhida e solit\u00e1ria, nutrida das suas tristezas \u00edntimas, envolta em sombras da d\u00favida. Um poeta da vida interior, enclausurado no seu sonho, estranho \u00e0 agita\u00e7\u00e3o que o rodeava.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles (\u201chomens derramados\u201d) que lhe chamaram (ainda em vida) de \u201co chefe da literatura nacional\u201d ou ainda de \u201ccl\u00e1ssico verdadeiro\u201d, pela forma, pelo minucioso estudo da l\u00edngua e pelo escrupuloso cuidado com que se apartava de tudo que lhe parecesse disson\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Nascido, h\u00e1 184 anos, na cidade do Rio de Janeiro, de onde pouco se afastou por toda a vida, ali cresceu em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, como tantos e tantos brasileiros. Pobre, sem recursos, sem fam\u00edlia, Machado de Assis foi um \u201cself-made man\u201d, formou-se por sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o, com a mais vasta leitura, tudo pelo esfor\u00e7o pr\u00f3prio. Sua experi\u00eancia de vida, certamente, o moldou.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o mesmo Jo\u00e3o Ribeiro (aqui, j\u00e1 citado), certa vez, ao concluir que \u201cn\u00e3o h\u00e1 na nossa literatura, p\u00e1ginas mais profundamente imorais e perigosas que as de alguns contos de Machado de Assis\u201d, o comparou, de forma \u201cobl\u00edqua e dissimulada\u201d, ao poeta alem\u00e3o Heinrich Heine (\u201co \u00faltimo dos rom\u00e2nticos\u201d).<\/p>\n<p>Assim, escreveu Jo\u00e3o Ribeiro:<\/p>\n<p>\u201cLudwig Boerne (escritor alem\u00e3o) disse que Heine era como um ratinho que havia cavado galerias subterr\u00e2neas inumer\u00e1veis; acossado num ponto, ele escorregava por outro. Era imposs\u00edvel apanh\u00e1-lo. S\u00f3 se a cr\u00edtica fosse um gato, dizia Boerne. Mas, nesse caso, o sr. Heine \u00e9 muito mais rato do que poder\u00e1 ser gato a mais acelerada cr\u00edtica\u201d. Concluiria, ent\u00e3o, Ribeiro: \u201cN\u00e3o sei que imagem se possa aplicar com mais adequada justeza a Machado de Assis, pelos sorvedouros que cava de subentendidos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*pesquisa: Jose Lucas (Folha do Piraju\u00e7ara)<\/p>\n<p>*fonte : www.brasildefato.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor de romances marcados na hist\u00f3ria da literatura brasileira &nbsp; N\u00e3o era o triunfo acachapante que fascinava o escritor Joaquim<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7272,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,54,4],"tags":[],"class_list":["post-7271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-historias-afro-brasileiras","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7271"}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7273,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7271\/revisions\/7273"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}