{"id":7428,"date":"2023-11-22T07:25:51","date_gmt":"2023-11-22T10:25:51","guid":{"rendered":"http:\/\/folhadopirajucara.com.br\/?p=7428"},"modified":"2023-11-22T07:25:51","modified_gmt":"2023-11-22T10:25:51","slug":"carolina-maria-de-jesus-a-voz-dos-que-nao-tem-a-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhadopirajucara.com.br\/index.php\/2023\/11\/22\/carolina-maria-de-jesus-a-voz-dos-que-nao-tem-a-palavra\/","title":{"rendered":"Carolina Maria de Jesus &#8211; a voz dos que n\u00e3o t\u00eam a palavra"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>&#8220;O livro&#8230; me fascina. Eu fui criada no mundo. Sem orienta\u00e7\u00e3o materna. Mas os\u00a0livros guiou os meus pensamentos.\u00a0Evitando os abismos que encontramos na vida.\u00a0Bendita as horas que passei lendo. Cheguei a conclus\u00e3o que \u00e9 o pobre quem\u00a0deve ler.\u00a0<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Porque o livro, \u00e9 a bussola que ha de orientar o homem no porvir (&#8230;)&#8221;<\/em><\/strong><br \/>\n<strong>&#8211; Carolina Maria de Jesus, em &#8220;Meu estranho di\u00e1rio&#8221;. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3, 1996, p. 167.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Carolina Maria de Jesus<\/em><\/strong>\u00a0(Sacramento MG, ca.1914 &#8211; S\u00e3o Paulo SP, 13 de fevereiro de 1977). Autora de di\u00e1rios e romance e tamb\u00e9m poeta. De fam\u00edlia pobre, composta por mais sete irm\u00e3os, trabalha desde a inf\u00e2ncia. Sua escolaridade se resume aos dois anos que frequenta o Col\u00e9gio Allan Kardec, provavelmente em 1923 e 1924. Neste ano, muda-se com a fam\u00edlia para uma fazenda em Lageado, Minas Gerais, onde trabalham como lavradores. Retorna a Sacramento, em 1927, e, por causa das dificuldades econ\u00f4micas, migra para Franca, S\u00e3o Paulo, em 1930, passando o primeiro ano na fazenda Santa Cruz e, depois, na cidade, onde trabalha como ajudante na Santa Casa de Franca, auxiliar de cozinha e dom\u00e9stica. Com a morte da m\u00e3e em 1937, vai para S\u00e3o Paulo em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. De 1948 a 1961, reside na favela Canind\u00e9, sobrevivendo como catadora de papel e ferro velho. Em 1958, o jornalista Aud\u00e1lio Dantas, numa reportagem sobre a inaugura\u00e7\u00e3o de um playground no Canind\u00e9, conhece Carolina e se interessa pelos seus 35 cadernos de anota\u00e7\u00f5es em forma de di\u00e1rio, e publica um artigo na Folha da Noite. Em 1959, trabalhando na revista O Cruzeiro, o jornalista divulga trechos dos relatos escritos pela autora e, posteriormente, empenha-se na publica\u00e7\u00e3o que re\u00fane esses relatos, Quarto de Despejo: Di\u00e1rio de uma Favelada, lan\u00e7ado em 1960, com not\u00e1vel sucesso editorial. Carolina muda-se para uma casa que consegue comprar no bairro de Santana e mant\u00e9m o di\u00e1rio com registros do que lhe acontece ali, depois editados em Casa de Alvenaria: Di\u00e1rio de uma Ex-favelada, em 1961. Em 1963, publica Peda\u00e7os da Fome, seu \u00fanico romance, que tem pouca repercuss\u00e3o. Em fun\u00e7\u00e3o dos cont\u00ednuos desentendimentos com seus editores, bem como das dificuldades enfrentadas para manter-se em evid\u00eancia e adaptar-se \u00e0 vida no bairro de classe m\u00e9dia, muda-se para um s\u00edtio no bairro de Parelheiros, S\u00e3o Paulo, em 1969, onde \u00e9 praticamente esquecida pelo mercado editorial, apesar de algumas tentativas de voltar \u00e0 cena liter\u00e1ria. Ap\u00f3s sua morte, s\u00e3o editadas obras escritas entre 1963 a 1977, das quais a mais significativa \u00e9 Di\u00e1rio de Bitita, com suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia e juventude, inicialmente lan\u00e7ado na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<strong>Coment\u00e1rio Cr\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Em Quarto de Despejo, a mulher negra e favelada, com pouca escolaridade, registra o cotidiano de pobreza que rege seus dias, bem como a humilha\u00e7\u00e3o social e moral a que est\u00e3o sujeitos os habitantes da favela do Canind\u00e9. As anota\u00e7\u00f5es de Quarto de Despejo, embora com descontinuidades cronol\u00f3gicas, n\u00e3o apresentam quebras na estrutura narrativa: cada dia \u00e9 igual a todos os outros, e o que conduz o fluxo da vida \u00e9 a fome e a luta contra ela. Nelas se pode constatar que o trabalho, prec\u00e1rio, n\u00e3o traz mais do que a condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima da sobrevida e a reprodu\u00e7\u00e3o da pobreza.<\/p>\n<p>Nos apontamentos de seu dia-a-dia, Carolina Maria de Jesus oscila entre des\u00e2nimo e alegria, sentimentos norteados pela car\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es materiais para manter-se e a seus filhos em situa\u00e7\u00e3o digna. Ao tratar dos outros moradores da favela, Carolina Maria de Jesus busca diferenciar-se e deixa documentada, em tom de den\u00fancia ou de moraliza\u00e7\u00e3o, a perda da honra daqueles que, exclu\u00eddos, est\u00e3o no &#8220;quarto de despejo&#8221; da cidade. Escrever sobre a favela n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de tentar dar sentido \u00e0 pr\u00f3pria vida, mas tamb\u00e9m de revelar a miserabilidade implicada na moderniza\u00e7\u00e3o dos anos 1950.<\/p>\n<p>O relato do cotidiano da favela \u00e9 direto e cru, sem que se temam os temas-tabus, como a ocorr\u00eancia de incestos e de rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas, bem como o horror que a fome pode produzir. Estilisticamente, os recursos da repeti\u00e7\u00e3o e das frases feitas indicam, no plano do sentido, o fechamento e a imobilidade do mundo social ali representado; a cada entrada no di\u00e1rio, a autora anota o hor\u00e1rio em que acorda, os gastos que ter\u00e1 se quiser se alimentar e vestir os filhos e o que poder\u00e1, ou n\u00e3o, acumular em dinheiro, o qual tem valor concreto e imediato, quase como um objeto. Os momentos de lirismo aparecem em anota\u00e7\u00f5es sobre a natureza, que surge como contraponto ao estado da miserabilidade a que s\u00e3o confinados os pobres.<\/p>\n<p>Fugindo aos c\u00e2nones do que se considera &#8220;literatura&#8221; em meios acad\u00eamicos, Quarto de Despejo \u00e9 mais do que um simples depoimento; trata-se de uma obra em que, a despeito das condi\u00e7\u00f5es materiais e culturais de sua autora, constr\u00f3i-se uma forte e \u00fanica representa\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica social urbana, vista pelo \u00e2ngulo dos que s\u00e3o lan\u00e7ados \u00e0 margem. Carolina Maria de Jesus escreve para denunciar a favela e para sair dela; escreve tamb\u00e9m para, diferenciando-se dos outros moradores, lutar contra o rebaixamento a que est\u00e3o sujeitos os miser\u00e1veis, num momento em que se anuncia novo salto modernizador de S\u00e3o Paulo e do Brasil.<\/p>\n<p>Em Casa de Alvenaria, notam-se mais explicitamente as contradi\u00e7\u00f5es da autora quanto ao que deseja para si mesma e para sua fam\u00edlia. Tamb\u00e9m ficam patentes suas hesita\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o\u00a0 aos anseios por reconhecimento p\u00fablico ou ao rep\u00fadio pelos mecanismos sociais que dificultam o trajeto profissional como escritora. Essa conjun\u00e7\u00e3o, por vezes discrepante, ajuda a entender as raz\u00f5es pelas quais essa obra \u00e9 considerada pouco significativa e muito voltada para o trajeto inst\u00e1vel de um indiv\u00edduo. Confinada \u00e0 forma do di\u00e1rio, Carolina Maria de Jesus parece se sentir compelida a repetir uma f\u00f3rmula, cujo efeito n\u00e3o tem a for\u00e7a de revela\u00e7\u00e3o de Quarto de Despejo. A figura da ex-favelada n\u00e3o desperta interesse, porque ela e sua obra s\u00e3o objeto de aten\u00e7\u00e3o apenas enquanto revelam a face negativa do desenvolvimentismo; j\u00e1 as oscila\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas da mulher que, famosa, busca a aten\u00e7\u00e3o da imprensa e do p\u00fablico n\u00e3o trazem \u00e0 \u00e9poca elementos que se julguem significativos.<\/p>\n<p>Di\u00e1rio de Bitita, publicado ap\u00f3s a morte da autora, resgata a for\u00e7a liter\u00e1ria da produ\u00e7\u00e3o de Carolina Maria de Jesus. Trata-se de mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia, em Sacramento e nas fazendas onde trabalha como colona, bem como de seus primeiros tempos em Franca. Nesta obra, os temas da injusti\u00e7a social, da opress\u00e3o, do preconceito contra os negros, dos abusos dos poderosos s\u00e3o apresentados a partir da perspectiva daquela que os viveu. Apesar de suas condi\u00e7\u00f5es materiais, Carolina Maria de Jesus lutou para conquistar dignidade e para se constituir como algu\u00e9m que resiste \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o. A obra testemunha a hist\u00f3ria dessa luta e da opress\u00e3o a que est\u00e3o confinados os pobres no Brasil das primeiras cinco d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>::\u00a0Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_lit\/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&amp;cd_verbete=12125&amp;cd_item=35&amp;cd_idioma=28555\">Enciclop\u00e9dia de Literatura\/It\u00e1u Cultural<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.elfikurten.com.br\">https:\/\/www.elfikurten.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O livro&#8230; me fascina. Eu fui criada no mundo. Sem orienta\u00e7\u00e3o materna. 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